Vai a grande cidade de Nínive | Jonas 1.1-2

Introdução

Jonas é um livro conhecido e apreciado em razão dos acontecimentos surpreendentes e que relata. Talvez você já conheça a história desde que era criança ou já tenha ouvido alguém falando do grande drama de um homem sendo engolido por uma ‘baleia’; embora o livro em nenhum lugar menciona qual a espécie de peixe, mas se deduz que seja por ser o maior mamífero marinho.

Outra coisa importante para se conhecer é o personagem principal do livro. Embora o livro relate a trajetória de Jonas do início ao fim, o propósito central do livro não é falar dele, mas sim de Deus. O livro inicia e termina com Deus falando e agindo o tempo todo. É por meio da experiência de Jonas que o Criador todo-poderoso revela que, apesar de ser o Deus que derrama sua ira sobre os perversos, também é aquele que, de bom grado, derrama misericórdia sobre quem se arrepende, inclusive sobre os que não hesitamos em considerar fora do alcance da misericórdia dele.

O tema principal do livro não é a desobediência de Jonas, embora ela seja plenamente combatida, mas a misericórdia de Deus. É Deus que demonstra do início ao fim do livro a sua misericórdia, até mesmo sobre pecadores perversos como os ninivitas e um profeta sem amor e completamente irado.

Elucidação

LOPES (2008, pág. 11) diz que Jonas foi o mais estranho de todos os profetas. Sua mensagem produziu efeitos até naqueles que não o ouviram diretamente. No entanto, nenhum profeta foi tão bem-sucedido. Nem mesmo Jesus, pois muitos se opuseram à sua pregação.

Jonas foi um profeta em Israel, o reino do norte, durante o reinado próspero materialmente, mas espiritualmente sombrio, de Jeroboão II (793-753 a.C). Nós lemos sobre este mesmo Jonas em 2 Reis 14.25, onde descobrimos que ele era de Gate-Hefer na Galiléia, uma cidade que pertencia à tribo de Zebulom, em um canto remoto da terra de Israel. Jesus não foi o único profeta de Deus que pregou na Galiléia, mas foi o único profeta que Deus enviou para pregar a outro povo no Antigo Testamento.

Nínive era a capital da Assíria, inimiga de Israel, uma grande e poderosa cidade; no entanto, uma cidade gentílica, sem o conhecimento e a adoração ao Deus verdadeiro. Sua população era pagã em sua adoração e promiscua em suas festas; além de ser perversa com seus inimigos capturados em suas batalhas.

Existem pelo menos três razões principais para se estudar o livro de Jonas:

  1. Porque ele revela muita coisa a respeito de Deus – o grande protagonista do livro não é o profeta Jonas, mas sim Deus, que aparece em praticamente cada versículo – agindo, interagindo, sendo paciente, perguntando, respondendo, salvando e assim por diante;
  2. Porque ele é citado por Jesus duas vezes – Jesus citou várias passagens do Antigo Testamento, mas suas citações em relação ao profeta Jonas têm ligações diretas com a sua missão e o que ele iria passar. Jesus se refere a história de Jonas e ao fato marcante de o profeta ter passado três dias e três noite dentro do grande peixe como um tipo ou figura de seu ministério, bem como de sua morte, sepultamento e ressurreição.
  3. Porque ele revela a importância da pregação do evangelho ao mundo – Deus não derramou sua ira sobre os ninivitas sem antes lhes dar a chance de se arrependerem de seus pecados. Deus envia uma profeta à Nínive, assim como nos envia ao mundo: para pregar o seu evangelho.

Nestes versos que lemos, encontramos algumas coisas importantes que precisam serem destacadas. Vejamos:

Esboço do texto

i. A maneira regular de Deus salvar e se relacionar com seu povo – Jn 1.1.

Deus sempre falou, desde na criação de tudo, até na punição e salvação do homem em pecado;

Deus não tem compromisso com as trevas, sua relação é sempre por meio da luz – com isso quero dizer que o método de Deus salvar os perdidos não é pelos recursos dos mesmos, mas do próprio Deus – Sl 119.105, Jo 1.1-4;

É por essa razão que Jonas é convocado – por ser um profeta em Israel, ninguém melhor do que ele para falar do Ser de Deus e sua obra.

ii. A maneira regular de Deus enviar seus profetas – Jn 1.2a.

Há pelo menos três palavras que definem bem a maneira regular de Deus enviar seus profetas a cumprir a missão de pregar o evangelho ao mundo. Vejamos:

  1. Vocação

A primeira palavra que precisamos observar é a vocação de Deus ao homem que também é chamado por ele. Vocação tem a ver com a missão que recebemos da parte de Deus. Essa vocação deve servir aos propósitos de Deus: Jonas foi enviado a Nínive porque foi vocacionado para ser um porta-voz de Deus aos homens.

2. Disposição

A segunda palavra importante a se observar é a disposição que Deus espera de seus vocacionados para realizar a obra missionária. A palavra “Dispõe-te” significa: levantar-se/pôr-se de pé. Deus espera prontidão para os que são chamados a servir de maneira específica no reino de Deus. Não há lugar para preguiça ou indisposição para cumprir a missão.

3. Ide

 A terceira palavra que precisa ser destacada no texto é “vai”, que significa: ‘ir, andar, vir, partir, prosseguir, mover, ir embora’. Jonas, que é chamado e vocacionado por Deus, precisava se levantar e ir até a cidade de Nínive. Sua missão envolvia ter que sair do lugar e ir a outro.

iii. A maneira regular de Deus expor a sua misericórdia – Jn 1.2b.

A missão de Jonas envolvia – além da vocação, disposição e ir até Nínive – “…clamar contra ela…”. Isto significa dizer que nem sempre a mensagem do profeta é a favor dos ouvintes. Para falar a verdade, enquanto pecadores debaixo da ira de Deus, a mensagem vinda da parte dele a nós é sempre revelam aspectos de juízo merecido e graça, que é o favor imerecido.

Enquanto muitos pensam e imaginam um Deus apenas de amor e que concede vitórias aos homens, a Palavra do Senhor revela um juiz irado e que manifesta seu poder contra seus opositores. A mensagem que Jonas recebeu para pregar à Nínive é contra toda malícia e perversão dos ninivitas.

Na parte do texto que diz “…porque a sua malícia subiu até mim”, encontramos alguns aspectos reveladores de Deus que precisamos assimilar bem. Vejamos:

  1. Deus conhece tudo e todos;
  2. Deus tem um nível de tolerância quanto ao mal entre os homens;
  3. Deus tem um nível de misericórdia quanto à sua santidade e natureza;

Portanto, sempre que o evangelho é pregado aos homens, Deus expõe a sua misericórdia de maneira regular. Sempre que a mensagem de arrependimento e salvação e pregada pelos profetas enviados por Deus, a graça a misericórdia estão presentes, antecipando o Grande e terrível dia do Senhor, quando já não haverá mais oportunidades para tal.

Veja o que diz o profeta Joel:

11 O SENHOR levanta a voz diante do seu exército; porque muitíssimo grande é o seu arraial; porque é poderoso quem executa as suas ordens; sim, grande é o Dia do SENHOR e mui terrível! Quem o poderá suportar? 12 Ainda assim, agora mesmo, diz o SENHOR: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com pranto. 13 Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal – Jl 2.11-13.

Da mesma maneira o profeta Malaquias transmite sua mensagem:

5 Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR; 6 ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição – Ml 4.5-6.

Aplicação

Podemos aplicar essa mensagem à nossa vida da seguinte maneira.

  1. Você que está ouvindo esse tipo de evangelho a primeira vez, saiba que Deus o trouxe aqui para que a sua graça e misericórdia o alcance, antes que sua ira se manifeste neste mundo. Por causa do seu e do meu pecado, merecemos a justa punição de Deus – “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos” – Ef 2.4-5;
  2. Você que já ouviu antes essa mesma mensagem, vale lembrar do caminho em que devemos andar. Aqueles que estão em Cristo devem não apenas desfrutar da salvação que ele oferece, mas também de sua vida em santidade. Não adianta nada saber que foi salvo e não viver em novidade de vida; na verdade, que não anda no Espírito de Deus é sinal de que não foi salvo – o aposto João diz “aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou” – 1Jo 2.6;
  3. Como igreja nos lembremos da missão que recebemos de anunciar o verdadeiro evangelho a toda a criatura – Mc 16.15; é desta maneira que também demonstraremos a compaixão de Deus pelo seu povo; e, assim, também expressaremos compaixão pelos perdidos; afinal de contas: “…Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! […] E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” – Rm 10.13-15, 17.

Capítulo 1: O cânon e a inspiração das Escrituras | Estudos na CFW (1643-1649)

Introdução

Em nosso último encontro meditamos sobre o Artigo I da Confissão de Fé de Westminster que fala da Revelação de Deus; revelação essa que se manifesta de duas maneiras: Geral e Especial (específica).

A Revelação Geral de Deus se encontra em sua criação: a natureza e tudo mais. Ela é capaz de revelar ao homem que há um Ser maior por trás de toda a criação, mas não é capaz de dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a Salvação; sendo necessário um outro modo de Deus revelar-se ao homem, e esse modo é conhecido como Revelação Especial.

Na Revelação Especial Deus é manifesta especificamente ao homem por meio de seu Filho Jesus Cristo para que conheçamos a sua vontade e sejamos redimidos. Para melhor preservação e propagação desta vontade de Deus revelada, foi igualmente servido fazê-la escrever toda, sendo possível para o homem sem Deus conhecê-lo, assim como a sua plena vontade, por meio das Escrituras Sagradas, onde a revelação de Deus é escrita.

A revelação especial de Deus consiste nos 66 (sessenta e seis) livros da Bíblia Sagrada, também chamados de ‘Cânon Protestante’ que são considerados divinamente inspirados. São apenas nesses livros que Deus revelou-se de forma a redimir e alcançar o ser humano. Somente através desses livros temos um conhecimento suficiente de Deus que nos leva a Cristo e consequentemente à salvação e redenção.

A CFW reconhece os sessenta e seis livros das Escrituras como canônicos e divinamente inspirados. Portanto, ela diz em seu Capítulo primeiro:

SEÇÃO II. Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamento  que são os seguintes, todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de prática:

Lc. 16:29,31; Ef. 2:20; 2 Tm. 3:16; Ap. 22:18-19

SEÇÃO III. Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos.

Lc. 24:27,44; Rm. 3:2; 2 Pe. 1:21

O ensino desses parágrafos da CFW diz respeito especialmente ao cânon das Escrituras. Neles são indicados os critérios empregados para o reconhecimento do cânon Bíblico. Quanto aos livros apócrifos, que foram incluídos na Bíblia católico-romana, são explicitamente considerados não inspirados e, portanto, não autoritativos, não devendo ser entendidos senão como escritos humanos.

Portanto, estes dois artigos do primeiro capítulo da CFW tratam no Cânon e da Inspiração das Escrituras. Vejamos cada um deles:

i. O cânon das Escrituras

A palavra cânon é um termo grego que significa vara reta, régua, regra. Aplicado às Escrituras, o termo designa os livros que se conformam à regra da inspiração e autoridade divinas; ou seja, são chamados de canônicos os livros que foram inspirados por Deus, os quais compõem as Escrituras Sagradas – o cânon bíblico.

Tratando da importância do cânon das Escrituras, podemos nos lembrar do que escreveu Moisés:

1 Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino, para os cumprirdes, para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR, Deus de vossos pais, vos dá. 2 Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos mando – Dt 4.1-2.

Sendo assim, conforme diz GRUDEM (1999, p.28) “aumentar ou diminuir as palavras de Deus impediria o seu povo de obedecer-lhe plenamente, pois as ordens retiradas não seriam conhecidas pelo povo, e as palavras acrescentadas poderiam exigir das pessoas coisas que Deus não ordenou”.

Portanto, o cânon das Escrituras são os livros inspirados por Deus que dispõem das Palavras de Deus para o seu povo. Cada livro, do Antigo (39) e Novo Testamento (27), são divinamente inspirados pelo Espírito de Deus e registrados nas Escrituras, a fim de que o homem de Deus seja ensinado, repreendido, corrigido e educado na justiça divina – 2Tm 3.16.

ii. Os livros apócrifos

A CFW também fala de livros que não foram reconhecidos como divinamente inspirados e que não possuem autoridade na igreja de Deus e, portanto, não fazem parte do cânon das Escrituras, sendo considerados apenas escritos humanos – esses livros são conhecidos como apócrifos[1].

Os apócrifos são livros que fazem parte do cânon da Igreja Católica Romana que também os reconhecem como canônicos, além dos 66 do cânon protestante. Esses livros foram escritos durante o período intertestamentário onde Deus estava em silêncio.

Nesses livros há histórias desse período que descreve a situação do povo, mas que não tem relevância doutrinaria por se tratar de um período em que Deus, durante quatrocentos anos, permaneceu em silêncio. Sendo assim, podemos concluir que os livros canônicos protestantes são aqueles doutrinários que expõem a vontade de Deus para seu povo, e, portanto, inspirados por Deus.

Já nos apócrifos não se pode encontrar o mesmo teor porque nesse período Deus não estava falando: “porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou” – Rm 1.19 [ARA]; e o que Deus não revelou deve permanecer como está, porque não nos pertence – Dt 29.29.

O que de fato tem autoridade e são necessários para a salvação e redenção do homem, assim como sua aproximação de Deus por meio de sua revelação especial, são os livros inspirados/canônicos.

iii. A inspiração das Escrituras

Além de identificar o cânon, esses parágrafos da Confissão de Fé de Westminster também professam a doutrina da inspiração das Escrituras. Conforme diz o apóstolo Paulo à Timóteo “Toda a Escritura é inspirada por Deus…” – 2Tm 3.16a, não apenas parte dela, mas toda ela.

ANGLADA (2013, p.61) diz que essa é uma “doutrina tão importante que pode ser considerada a base de todas as demais; colocá-la em dúvida significa duvidar da autoria divina das Escrituras”, e, fazendo assim, lançaremos “…fora a Bíblia toda e abdicando de sua autoridade e inerrância”.

A doutrina da inspiração das Escrituras está alicerçada no que o apóstolo Pedro disse: “sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” – 2Pe 1.20-21; ou seja, “embora a Bíblia tenha sido escrita por cerca de quarenta pessoas distintas uma das outras, elas escreveram movidas e dirigidas pelo Espirito Santo, de tal modo que tudo o que foi registrado por elas nas Escrituras constitui-se em revelação autoritativa de Deus” (Anglada, 2013, p. 63). Enquanto o propósito da Revelação é comunicar a verdade de Deus, a inspiração assegura a infalibilidade deste registro; sendo confiáveis e autoritativas cada palavra das Escrituras.

Conclusão

O que a CFW propõe é a confiabilidade e reconhecimento das Escrituras por meio de sua canonicidade e inspiração; rejeitando tudo o que não provém de Deus por revelação especial, registrada nas Escrituras por inspiração, nos 66 livros canônicos. Os livros considerados apócrifos não são aceitos como inspirados, mas apenas escritos humanos.

Podemos confiar em cada palavra registrada nas Escrituras Sagradas como Palavra de Deus revelada a homens santos, movidos e inspiração pelo Espírito Santo; e cada Palavra é útil para o nosso ensino, repreensão, correção e educação na justiça divina. Portanto, como igreja sustentada pela Palavra inspirada e canônica, busquemos a nossa edificação e proclamemos toda a verdade de Deus a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.

Bibliografia

  • Anglada, P. R. (2013). Sola Scriptura – A Doutrina Reformada das Escrituras. Ananindeua, PA: Knox Publicações.
  • Grudem, W. A. (1999). Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Vida Nova.
  • Sproul, R. C. (2017). Somos todos teólogos: uma introdução à teologia. São José dos Campos, SP: Editora Fiel.
  • Westminster, A. d. (2008). Confissão de Fé de Westminster. São Paulo, SP: Cultura Cristã.

[1] diz-se de ou obra religiosa destituída de autoridade canônica – Fonte: https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/.

Morreu, e agora está no céu | um lembrete aos vivos

Tem muita gente pensando que a ‘morte’ do corpo o santifica; basta morrer que irá direto para o céu, não importando a vida que levou na terra. A Bíblia nos chama a atenção para ‘a mortificação da carne’ para aqueles que ESTÃO EM CRISTO; e chama esse processo de SANTIFICAÇÃO, algo que está em curso.

O céu é para aqueles que depositaram sua fé no Cristo que morreu e pagou o mais alto preço com sua vida, e se arrependeram de seus pecados enquanto tiveram oportunidade na terra; desta forma, suas vidas foram confirmadas pelo Espírito de Deus e santificadas dia após dia.

O céu pertence ao filhos de Deus que manifestaram fé no Senhor e, enquanto tiveram oportunidade, viveram de maneira santificada, como Ele é santo e o santificador. Vida sem Cristo não existe SANTIFICAÇÃO, muito menos SALVAÇÃO; assim também, sem a santificação ninguém verá o SENHOR.

Ou seja, não basta apenas morrer para ir ao céu; é preciso crer e confessar Jesus Cristo como Senhor e Salvador de sua vida diante dos homens. Se tiver oportunidade de continuar vivo nesta terra, será necessário a santificação – mortificar as paixões carnais, para então se encontrar com o SALVADOR E SANTIFICADOR.


Referências Bíblicas para consulta

Hb 2.11, 12.14; 1Co 1.2; Jo 17.19; Ef 1.13-14; Gl 5.16; Rm 8.12-13, 10.9-13; At 4.12; Ap 7.10; Mt 3.2, 4.17, 10.32; Mc 1.15; At 2.38, 3.19; Rm 1.16.

Capítulo 1: A revelação de Deus | Estudos na CFW (1643-1649)

  • CAPÍTULO 1: Da Escritura Sagrada – parte I

A revelação de Deus

Introdução

João Calvino (2019, p. 9) falando sobre as Escrituras disse que “…nosso saber não deve ser outra coisa senão abraçar com branda docilidade, e certamente sem restrição, tudo quanto foi ensinado nas Sagradas Escrituras”. Para Calvino, tudo o que precisamos saber e o que precisa ocupar a nossa mente estão disponíveis nas Escrituras.

Desta forma, podemos nos lembrar do que Paulo também disse aos colossenses sobre este mesmo tópico, quando diz: “Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra” (Cl 3.2 [ARA]). O que Paulo está dizendo é que devemos ocupar a nossa mente com as coisas concernentes a nossa nova vida em Cristo Jesus. Isto não significa que nosso viver vai se voltar apenas para os assuntos relacionados a igreja, mas que tudo o que nos propormos a fazer e viver estará sujeito ao que esta nova vida em Cristo nos permite ser e fazer; e as Escrituras Sagradas nos ajudam neste ponto, pois elas são o nosso manual de fé e pratica.

No contexto atual em que vivemos se faz necessário termos uma confessionalidade bíblica e reformada, tendo em vista a pluralidade de ideias – até dentro das igrejas­ – sobre assuntos que envolvem a criação de filhos, casamento, sexualidade; questões éticas como o aborto, suicídio, homossexualismo e outro.

O capítulo primeiro da CFW diz:

SEÇÃO I. Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo.

Sl 19:1-3; Rm 1:19-20; Rm 1:32; Rm 2:1; Rm 2:14-15; 1 Co 1:21; 1 Co 2:13-14; Hb 1:1; Pv 22:19-21; Is 8:19-20; Mt 4:4,7,10; Lc 1:3-4; Rm 15:4; 2 Tm 3:15; 2 Pe 1:19; Hb 1:1-2.

i. Revelação

A CFW começa com o ponto principal e oriundo de toda a teologia que é a Revelação da Palavra de Deus por meio das Escrituras Sagradas. Enquanto muitos partem do ponto sobre o Ser de Deus e seus atributos, a CFW tem como premissa a base de todo esse conhecimento sobre Deus e suas obras as Escrituras Sagradas, pois é por meio dela que recebemos tal conhecimento acerca de Deus e sua obra – Dt 29.29.

Porém, a CFW destaca duas verdades a respeito da aplicação desta revelação, que são: Revelação geral e Revelação especial de Deus. Vejamos:

ii. Revelação geral de Deus

A primeira parte deste primeiro ponto da CFW fala da manifestação de Deus de maneira geral, dentro da natureza. A CFW diz: “…a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus…”. Portanto, é possível para o homem ter um conhecimento básico a respeito de Deus apenas olhando e contemplando a natureza – Sl 19.1-4; Rm 1.19-20.

Entretanto, essa revelação elementar de Deus, à luz da natureza, não é suficiente para que o homem tenha um envolvimento relacional com Deus e ser redimido por ele. A própria CFW também diz que este conhecimento “…não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação…”; com isso, “…os homens ficam inescusáveis…” – Rm 1.20b-21.

O homem pode até chegar à conclusão de que Deus existe e que tudo ao nosso redor só poderia vir de um ser superior, com uma mente superior e capacidade criativa superior. Mas esse conhecimento não o levará a contemplar a Deus plenamente, nem compreender a Sua obra e o propósito da vida, porque encontra-se cego espiritualmente – Jo 3.1-3. Essa cegueira espiritual do homem é parte do juízo de Deus em consequência de seu pecado – Dt 28.28. É por essa razão que a revelação geral de Deus não é suficiente para a salvação deste homem; sendo necessária uma revelação especial da parte de Deus. Vejamos:

iii. Revelação especial

A CFW continua dizendo “…por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade…” – Hb 1.1; 1Co 2.13-14, essa vontade diz respeito ao plano de Deus de alcançar o homem caído, redimindo-o de seu pecado, restaurando-o de sua condição e habilitando-o a conhecer o seu Criador por meio de Cristo, nas Escrituras.

Desta forma, todos os outros meios de Deus revelar a sua vontade foram cessados, sendo possível apenas conhecer o que já revelou por meio de seu Filho e registrado nas Escrituras – Jo 1.1; Hb 1.2; 1Co 1.21.

A CFW, falando da preservação desta vontade revelada de maneira especial, com o fim de que ela fosse propagada em gerações futuras e usada pela igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, ela diz “…foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo” – Rm 15.4; Lc 1.3-4; Hb 1.2.

Conclusão

Desta maneira, conforme a CFW declara, só podemos ter um conhecimento acerca de quem é de Deus e conhecer a sua vontade por meio das Escrituras. Elas nos revelam o salvador e a obra redentiva de Deus. A CFW nos ajudam a sistematizar essa verdade de maneira tal que possamos melhor apresentar nossa cosmovisão de Deus e do homem.

O que é declarado pela CFW não tem como base a particular elucidação de um grupo de homens, mas as Escrituras Sagradas, pois elas são o fundamento de nossa fé e a nossa regra de prática cristã.

Bibliografia

  • Guimarães, José Antônio Lucas. Confissão de Fé de Westminster: Edição com reflexões de João Calvino. São Paulo, SP. Edição do Kindle, 2019.
  • de Westminster, Assembleia. Confissão de Fé de Westminster, Londres, 1643-1649. Edição do Kindle.

Os sofrimentos do pastor

“pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós […] Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” 1Pe 5.2a, 4 [ARA].

Introdução

A vida de um pastor não é nada fácil, como alguns pensam e até almejam. O pastor é aquele vocacionado por Deus para cuidar do rebanho, pregando a boa semente da Palavra de Deus, mas que muitas vezes é esquecido pelo próprio rebanho. Ele é vocacionado e preparado para as labutas do ministério e ao mesmo tempo é surpreendido com o que encontra ao longo da caminhada ministerial.

Certa vez li um livro editado por Collin Hansen e Jeff Robinson, publicado pela editora Vida Nova, intitulado como: “15 Coisas que o seminário não pôde me ensinar”; e um de seus artigos me chamou a atenção, e fala sobre Como pastorear minha congregação em períodos de sofrimento – de John Onwuchekwa, e percebi que até isso um pastor também é vocacionado para lidar, como em tempos como esse que vivemos, de pandemia.

Mas, a minha grande descoberta é que grande parte destes períodos de sofrimento o pastor passa sozinho; não sem o auxílio e amparo de Deus, pois este nunca nos abandona; mas, em relação ao rebanho e demais colegas de ministério e até aqueles “amigos”.

A realidade do ministério pastoral

Um renomado escritor e pastor Batista no Kentuchy, Brian Croft, fez uma pesquisa sobre o ministério pastoral que resultou em alguns artigos e um livro publicado pela Editora Fiel. Um de seus artigos tem como título o seguinte: Por que o ministério pastoral é uma atividade tão arriscada?[1] E ele chegou a alguns números preocupantes que mostram o risco para aqueles que “põem as mãos no arado” desse trabalho nobre, mas custoso:

  • 70% lutam constantemente com a própria depressão.
  • 50% sentem-se tão desencorajados que deixariam o ministério se pudessem.
  • 50% dos pastores não estarão mais no ministério em cinco anos.
  • 80% acreditam que seu ministério pastoral prejudica suas famílias.
  • 80% das esposas dos Ministros sentem-se excluídas e pouco valorizadas.
  • 70% não tem alguém que considere um amigo próximo.
  • 90% dizem que não receberam treinamento adequado para atender às demandas do ministério.
  • 85% nunca “tiraram” um período sabático (44% não tem folga semanal).
  • 80% não estarão mais no ministério em dez anos.

Esses índices, embora alarmantes, apenas revelam uma realidade na vida de todo pastor: que o ministério pastoral também envolve o sofrimento, embora não se resuma apenas a isso. Quem dera que pudéssemos ser alertados sobre esses temas críticos no início de nossa jornada, muito antes do seminário. Quem dera pudéssemos ter uma ‘receita pronta’ de como encarar esses desafios de maneira prática e consoladora; porém, percebemos que por mais que tenhamos muita literatura escrita por bons pastores retratando as suas experiências ao longo do ministério pastoral, ainda assim perceberemos que cada um tem as suas próprias experiências e que elas devem serem experimentadas por cada pastor, mesmo que tenha sido ensinado sobre elas.

Outro material de grande ajuda no ministério pastoral, é livro do Rev. Hernandes Dias Lopes: “De pastor a pastor”. O autor também escreve um capítulo do livro falando sobre “Os sofrimentos do pastor”; e diz:

O céu não é aqui. Aqui não pisamos tapetes aveludados nem caminhamos em ruas de ouro, mas cruzamos vales de lágrimas. Aqui não recebemos galardões, mas bebemos o cálice da dor […] Os sofrimentos da lida pastoral são variados […e] nosso sofrimento não é sinal de que estamos longe de Deus nem de que estamos fora da sua vontade […pois] não há pastorado sem luta e não há ministério indolor[2].

Mais uma vez somos consolados sobre os bastidores do ministério pastoral que necessariamente precisamos encarar de maneira realista e corajosa.

As razões do ‘por que’ escrevo estas coisas

Não escrevo sobre essas coisas para trazer desanimo e desestimular o amado e querido pastor quanto as suas convicções de ministério – pois tenho certeza de que ele já teve provas suficientes de que foi chamado e vocacionado por Deus para tal missão. Também não escrevo para levá-lo a desistir desta igreja ou até do ministério – porque também tenho plena certeza que o amado pastor estar em família e é amado por este rebanho. Não tenho a pretensão de ensinar nada ao querido pastor – até porque também sou sua ovelha e aluno na escola do discipulado cristão; tenho aprendido muito ao lado dele e creio que há muito o que aprender.

Mas, escrevo para dizer que embora essa realidade no ministério e na vida pastoral, como disse o apóstolo Pedro, pastorear o rebanho de Deus espontaneamente e de boa vontade é cumprir a vontade de Deus; e cumprir a vontade de Deus é a única coisa que deve alegrar nosso coração diante deste quadro.

O bom salário, o cargo que ocupamos, as ambições que alimentamos no ministério e nosso nome nos muitos livros escritos, não devem ser o motivo de nossa maior alegria no ministério, mas cumprir a vontade de Deus. Pedro diz que não apenas é “…testemunha dos sofrimentos de Cristo…”, mas também “…coparticipante da glória que há de ser revelada”.

Ele também diz que o Supremo Pastor um dia virá e se manifestará diante dos seus; neste dia, então, prestaremos contas sobre o cumprimento da missão que recebemos do Senhor: se pastoreamos o rebanho do Senhor de boa vontade e disposição tornando-nos um modelo a ser seguido, como Deus quer, ou o fizemos por sórdida ganância e como dominadores dos que nos foram confiados.

Se estamos cumprindo o ministério pastoral como Deus quer – e tenho plena certeza de que o querido pastor Dorisvan tem caminhado nesta direção, então receberemos a “…imarcescível coroa da vida”, ou seja, uma incorruptível, imperecível e indolor coroa de glória eterna.

Tudo isso porque o Supremo Pastor já suportou a mais terrível coroa de espinhos, não de glória, mas de vergonha e dor; não de honra, mas símbolo da corrupção e pecado do homem; não eterna, mas dolosa e perecível. Ele suportou tudo isso por pessoas como eu e você, amado pastor, para que as nossas culpas fossem perdoadas; e a prova de que houve sucesso na missão foi a sua ressurreição e ascensão aos céus, assentado à destra de Deus.

Conclusão

Que neste dia em especial e todos os outros que o Supremo Pastor lhes conceder aqui na terra, lembre-se do que Ele foi capaz de fazer pelos seus e do alto preço que pagou para que tivéssemos o perdão de nossos pecados e recebêssemos a vida eterna.

Em dias de dor e sofrimento, lembre-se daquele que suportou a vergonha da cruz para que Deus redimisse o seu povo; lembre-se que a cruz e o túmulo estão vazios; lembre-se que Ele está conosco todos os dias, até a consumação dos séculos; lembre-se que neste dia Ele “…lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” – Ap 21.4; então neste dia, “…recebereis a imarcescível coroa da glória”.

Portanto, cumpra a missão que recebeste do Senhor com alegria e pastoreai o rebanho de Deus, como Deus quer; e então descobrirás a verdadeira alegria que esta igreja demonstra a você, não apenas por seu aniversário, mas por serem guiadas por um bom e dedicado pastor que também é guiado pelo Supremo Pastor.

Parabéns e que Deus o abençoe ricamente em Cristo Jesus!

Texto escrito em razão do aniversário do Rev.: Dorisvan Cunha (IPB de Parauapebas, Pa.), no dia 22 de abril de 2021, em comemoração aos 39 anos de vida.

Bibliografia
  • Croft, B. (13 de fevereiro de 2019). Por que o ministério pastoral é uma atividade tão arriscada? Fonte: Voltemos ao Evangelho: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2019/02/por-que-o-ministerio-pastoral-e-uma-atividade-tao-arriscada/
  • Lopes, H. D. (2008). Os sofrimentos do pastor. Em H. D. Lopes, De Pastor a Pastor (pp. 109-118). São Paulo, SP: Hagnos.
  • Onwuchekwa, J. (2015). Como pastorear minha congregação em períodos de sofrimento. Em C. Hansen, & J. Robinson, 15 coisas que o seminário não pôde me ensinar (pp. 1165-1314). São Paulo, SP: Vida Nova.

Notas

[1] https://voltemosaoevangelho.com/blog/2019/02/por-que-o-ministerio-pastoral-e-uma-atividade-tao-arriscada/

[2] LOPES, 2008, p. 109-110

A morte não é o fim | Salmo 23.4

Ao termos acesso aos jornais, somos bombardeados pelas notícias tristes das inúmeras mortes causadas pela Covid-19 e os jornais fazem questão de enfatizar nos números. Hoje pela manhã vi no noticiário que o Brasil atingiu o maior número de mortos diário, desde o início da pandemia: mais de quatro mil mortos. É lamentável e preocupante esse tipo de realidade, mas é o que está acontecendo no mundo todo. Estamos sujeitos aos mesmos efeitos da pandemia – apesar de muitos conseguirem se recuperarem e sobreviverem, pela graça de Deus.

Muitos, com medo do contágio do vírus, evitam sair de casa para qualquer coisa; outros, pela necessidade do trabalho, acabam arriscando suas vidas todos os dias. Mas, todos estamos vivendo o mesmo contexto, porém, alguns com mais medo e outros menos. O quadro geral que estamos vivendo nos faz pensar sobre a nossa realidade. E a pergunta que fica é se nós, que pertencemos a Deus, também devemos temer a morte?

A Bíblia ensina que a morte é resultado do pecado, provindo de algo mal e corrupto causado pelo homem (Gn 2.17; Rm 5.12-14). A morte é tão errada que Paulo diz: “O último inimigo a ser destruído é a morte” – 1Co 15.26. Porém, para o crente, a morte não é o fim, mas o meio. A morte não é algo para o qual nós vamos, mas algo pelo qual nós passamos. Não é assim que pensamos normalmente a respeito da morte em geral, mas de acordo com Davi, a morte é o meio e o que vem depois é glorioso – Sl 23.4, 6. Ele diz isso por uma razão: porque a Bíblia nos garante essa verdade!

A Bíblia nos ensina muitas coisas a respeito desde assunto, alguns deles trataremos aqui. Vejamos:

i. A Bíblia reconhece a realidade da morte – Gn 3.19.

Os cristãos devem reconhecer a realidade da morte; é danoso não a reconhecer, pela simples razão de que é tolice viver como se não fossemos morrer um dia. Ela é real, dolosa, insuperável e necessária. Portanto, como cristãos, reconhecemos a realidade da morte.

Apesar de tudo, a morte é derrotada em Cristo e ele prometeu estar conosco ao passarmos por ela – Mt 28.20b. Há passagens nas Escrituras que nos dão consolo neste sentido, como: Sl 116.15; Sl 23.4; 1Co 15.55-57.

ii. A Bíblia ensina que a morte é para todos, e acontece uma única vez – Hb 9.27

A Confissão de Fé de Westminster, em seu capítulo XXXII seção I, diz o seguinte:

Os corpos dos homens, depois da morte, convertem-se em pó e vêm a corrupção; mas as suas almas (que nem morrem nem dormem), tendo uma substância imortal, voltam imediatamente para Deus que as deu. As almas dos justos, sendo então aperfeiçoadas na santidade, são recebidas no mais alto dos céus onde vêm a face de Deus em luz e glória, esperando a plena redenção dos seus corpos; e as almas dos ímpios são lançadas no inferno, onde ficarão, em tormentos e em trevas espessas, reservadas para o juízo do grande dia final. Além destes dois lugares destinados às almas separadas de seus respectivos corpos as Escrituras não reconhecem nenhum outro lugar[1].

Portanto, três coisas nos é dito neste artigo:

  1. O ‘corpo’ é que morre; e não a alma – Gn 3.19; Ec 12.7
  2. As almas dos justos são recebidas no céu; já a dos ímpios, no inferno – Lc 23.43; Fp 1.23; 2Co 5.1, 6, 8.
  3. Após o grande dia final, os corpos serão ressuscitados – Jó 19.26-27; 1Co 15.42-44, 51-52;

Não somente os crentes em Cristo podem confiar que a morte levará seus espíritos imediatamente à presença da glória de Cristo, mas eles podem contar com a futura ressurreição de seus corpos. A ressurreição do corpo é uma parte necessária e gloriosa do evangelho. A ressurreição de Cristo começa no crente no momento da conversão e conclui em seu retorno na gloriosa restauração de nossos corpos que morreram.

iii. A Bíblia também ensina sobre o juízo final – Mt 25.31-32

Deveríamos notar que todos serão ressuscitados, não apenas os crentes. Descrentes também serão ressuscitados para uma existência eterna. Para os crentes, essa existência será a vida eterna, mas para os descrentes, a ressurreição é para a morte eterna. Essa ressurreição de todas as pessoas ocorrerá imediatamente depois da segunda vinda de Cristo – João 5.28; 1Ts 4.15-18.

A Confissão de Fé de Westminster, em seu capítulo XXXII seção II e III, diz o seguinte:

No último dia, os que estiverem vivos não morrerão, mas serão mudados; todos os mortos serão ressuscitados com os seus mesmos corpos e não outros, posto que com qualidades diferentes, e ficarão reunidos às suas almas para sempre. Os corpos dos injustos serão pelo poder de Cristo ressuscitados para a desonra, os corpos dos justos serão pelo seu Espírito ressuscitados para a honra e para serem semelhantes ao próprio corpo glorioso dele[2].

Na ressurreição que toma lugar no retorno de Cristo, todos os que estão nele terão seus corpos ressurretos unidos a suas almas, antes de serem glorificados – 1Co 15.42-46; nossos mesmos corpos serão ressuscitados, não outros.

Ainda sobre esse ponto, a CFW em seu artigo XXXIII seção I, destaca o seguinte:

Deus já determinou um dia em que, segundo a justiça, há de julgar o mundo por Jesus Cristo, a quem foram pelo Pai entregues o poder e o juízo. Nesse dia não somente serão julgados os anjos apóstatas, mas também todas as pessoas que tiverem vivido sobre a terra comparecerão ante o tribunal de Cristo, a fim de darem conta dos seus pensamentos, palavras e obras, e receberem o galardão segundo o que tiverem feito, bom ou mau, estando no corpo[3].

Portanto, neste julgamento final haverá a justa justiça de Deus sendo aplicada, ao expor a vida dos crentes em Jesus e dos incrédulos. Os que viveram a vida de Cristo enquanto estiveram vivos, serão julgados de acordo com a justa justiça de Cristo, que lhes é imputada pela fé; é por essa razão que não temos nada a temer – Rm 8.1, 31-39. Mas, aos incrédulos, está reservado um julgamento conforme as suas próprias obras – Ap 20.12. De acordo com a Bíblia, as obras daqueles que rejeitaram a Cristo serão expostas e punidos com julgamento eterno – Ap 20.15.

Conclusão

Como crentes em Jesus, não devemos temer a morte, nem a provocar, pois fazendo isso estaríamos quebrando o sexto mandamento“Não matarás” (Êx 20.13); mas, devemos suportar os sofrimentos do tempo presente na certeza de que eles contribuem para o nosso aperfeiçoamento e para que não venhamos nos apegar a este mundo caído.

Como salvos em Cristo, devemos confiar em sua obra graciosa, nos mantermos em santificação na certeza de que, assim como ele ressuscitou dos mortos, nós também seremos – para a glória de Deus, e nos preparar para o grande dia em que nos reuniremos a Ele para todo o sempre!

Aplicação

O desejo do nosso coração é poder viver a mesma fé do salmista Davi, quando diz: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam” – Sl 23.4. E o que nos garante esse consolo percebido pelo salmista é próprio Cristo Jesus. Foi ele quem venceu a morte, com a sua morte. Foi ele que pagou o mais alto preço do pecado, com o seu corpo, em sofrimento, dor e morte. Foi ele que assumiu o nosso lugar, como aquele Rei de amor que se sacrifica pelos seus. Foi ele que, em obediência e submissão a Deus, deu a sua vida por aqueles que estavam mortos em seus delitos e pecados.

É em Cristo que encontramos a segurança necessária em tempos em que a sombra da morte nos assola e inquieta nosso coração. Pois Ele é o “…socorro bem presenta nas tribulações” – Sl 46.1b. Foi isso que Ele disse aos seus discípulos: “…No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” – Jo 16.33b; “…E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” – Mt 28.20b. É a presença constante de nosso Senhor – vitorioso, cheio de poder e autoridade – em nossa vida que podemos descansar diante das constantes aflições que passamos neste mundo; e uma delas é a própria morte – seja a nossa ou de quem amamos.

Nos lembremos também que foi Ele, como diz o apóstolo Paulo aos Coríntios, que “…ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos”; portanto, “…assim como em Adão todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo” – 1Co 15.20-22.

A realidade da morte está presente na vida do homem por conta de seu pecado; mas, a vida também está disponível a ele por causa da morte e ressurreição de Cristo. Ou seja, pelos pecados cometidos por um homem, todos morreram. Mas pela obediência de Cristo, com sua morte e ressurreição, há vida aos que creem, sendo Ele as primícias dos que dormem.

Quando passares pelo vale da sombra da morte lembre-se do que o salmista também diz: “…Tu estás comigo…”. Isso consola nosso coração, pois Ele é o triunfo final do crente. Estar em sua presença de maneira definitiva e gloriosa é a esperança de todo aquele que nele crer. O paraíso terá pastos verdejantes não apenas porque foi restaurado pelo Senhor, mas também porque Ele estará lá eternamente – e nós com Ele. Desfrutaremos juntos, como um único povo diante do único Deus e Senhor, celebrando a vida eterna na presença daquele que é eterno e imortal – e nós com Ele.

Enquanto estamos nesta vida, limitada e repleta de dor e sofrimento, que possamos nos preparar para a morte final, em Cristo. Esse último obstáculo que enfrentaremos deve ser encarado como que o cajado e a vara de nosso Senhor nos consolando e guiando nossas vidas na direção correta a seguir.

Assim como o cajado e a vara na mão do pastor de ovelhas servia para trazer de volta as fugitivas, proteger o rebanho das feras ou para mantê-las na direção correta, assim também, enquanto padecemos neste mundo e perseveramos na vida cristã, o Espírito de Deus nos guia e nos ajuda a mantermos “…firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o trabalho de vocês não é vão” – 1Co 15.58 [NAA]. Todo esforço e trabalho pela causa do evangelho, nossa santificação e perseverança – inclusive nossa morte, no Senhor não é vão. Amém!


[1] de Westminster, Assembleia. Confissão de Fé de Westminster . Edição do Kindle.

[2] de Westminster, Assembleia. Confissão de Fé de Westminster . Edição do Kindle.

[3] de Westminster, Assembleia. Confissão de Fé de Westminster . Edição do Kindle.

Nossa Confessionalidade | Estudos na CFW (1643-1649)

Introdução

Como igreja confessional precisamos refletir sobre os fundamentos da nossa fé. Em tempos como esse que vivemos se faz necessário ter bem definida a nossa visão doutrinaria a fim de nos mantermos firmados e habilitados para defender aquilo que cremos.

Certa vez Jesus perguntou a seus discípulos: “…Quem dizem os homens que sou eu? E responderam: João Batista; outros: Elias; mas outros: Algum dos profetas. Então, lhes perguntou: Mas vós, quem dizeis que eu sou? Respondendo, Pedro lhe disse: Tu és o Cristo. Advertiu-os Jesus de que a ninguém dissessem tal coisa a seu respeito.” – Mc 8.27b-30.

Jesus não estava interessado no que as pessoas diziam sobre ele e sua identidade; o que queria saber, na verdade, era o que seus discípulos pensavam a respeito dele. Mais tarde, depois da ascensão de Cristo, Pedro e os demais, já autorizados a divulgarem a verdade a respeito do Cristo, puderam declarar abertamente a sua cosmovisão: “A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas […] Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”. – Atos 2.31, 36.

Com isso, também aprendemos sobre a importância de estarmos plenamente conscientes a respeito daquilo que cremos e bem-preparados para dar razão de nossa fé.

Uma das características originais da tradição reformada foi a sua confessionalidade. Nos séculos 16 e 17, os reformados, mais do que outras tradições protestantes, preocuparam-se em expressar formalmente as suas convicções doutrinárias por meio de declarações escritas. Essas declarações foram de dois tipos: confissões de fé e catecismos. As confissões de fé são documentos dirigidos tanto a um público interno quanto externo e consistem em uma exposição sistemática dos principais pontos da fé reformada. Já os catecismos são dirigidos principalmente aos fiéis, especialmente as crianças e os jovens, e geralmente têm a forma de perguntas e respostas[1].

A Confissão de Fé de Westminster foi redigida por mais de 120 teólogos reformados calvinistas (ingleses e escoceses), reunidos na Abadia de Westminster, na cidade de Londres, em um Concílio conhecido na História pelo nome de Assembleia de Westminster. Esse concílio aconteceu mediante uma convocação do Parlamento inglês para preparar uma nova base de doutrina, forma de culto e governo eclesiástico que devia servir para a Igreja.

Os teólogos mais eruditos daquele tempo tomaram parte nos trabalhos da Assembleia, onde discutiram ponto por ponto da Confissão e Catecismos, aproveitando o que havia de melhor nas Confissões existentes. Por assim dizer, a CFW é a confissão mais aceita entre os reformados por ter princípios mais bem elaborados e justificados biblicamente. Ela foi a última das confissões formuladas durante o período da Reforma e bebeu de todas as anteriores; portanto, o que houve de equívocos nas anteriores foram evitados na CFW.

Nossa confessionalidade possui algumas características importantes que precisamos admitir. Vejamos:

i. Uma confessionalidade bíblica

GUIMARÃES (2019, pág. 5) diz que estamos diante de um documento que representa:

  1. O esforço da igreja para estabelecer a verdade bíblica na cultura e no mundo em tempos difíceis. Em tempos difíceis, buscam-se alternativas e rumos diversos; mas eles se esforçaram para enfrentar a adversidade através da direção bíblica para a igreja e sociedade. Julgavam que somente com a Palavra a igreja, o governo e a sociedade poderiam alcançar a equidade e a paz.
  2. A fiel exposição da Sagrada Escritura. Isso significa que houve fidelidade à Escritura para que fosse elaborada uma fiel exposição dela. Sendo, portanto, um esboço da doutrina do Senhor.
  3. A expressão da espiritualidade cristã reformada. Os termos e expressões utilizados na Confissão de Fé de Westminster formam a linguagem de nossa espiritualidade e definem o que pensamos e somos.
  4. O amor à Palavra de Deus. A Confissão é, em seu conteúdo, um estudo bíblico. Sua intenção é estabelecer a Bíblia como manual de fé e prática, bem como referência à constante consulta, ao pleno estudo e à profunda devoção. Ela está repleta de citações Bíblicas porque se sustenta pela Escrituras Sagradas. Portanto, ao estudá-la, o leitor também alimentará um amor pela Palavra de Deus, pois essa é a proposta da Confissão: nos conduzir pela Palavra de Deus.
  5. A busca pela verdade. Uma das características da Confissão é a sua linguagem e conteúdo simples, embora profundo e edificador; tendo em vista a verdade das Escrituras em sua essência.

Portanto, a CFW é um conjunto de artigos que definem a visão bíblica da igreja acerca de diversos assuntos relacionados as Escrituras, a ética cristã, ao pecado, ao mundo, a liderança da igreja e sua estrutura, a nossa santificação e perseverança, a morte do corpo, ao céu e o inferno, a volta de Cristo, ao fim e a restauração de todas as coisas. Tudo isso dentro de uma perspectiva – cosmovisão – reformada.

ii. Uma confessionalidade Cristocêntrica

Quando lemos a carta de Paulo aos Colossenses (1.13-20) percebemos ali uma belíssima declaração confessional. Paulo, por assim dizer, expressou de maneira ‘bíblica’ a sua confessionalidade cristocêntrica à igreja de Colossos. Infelizmente nem todos são capazes de tal declaração, tendo em vista o seu raso conhecimento bíblico.

Nessa declaração o apóstolo Paulo tratou:

  1. Do amor do Pai – ao nos libertar do império das trevas pela ação de seu Filho;
  2. Do reino do Filho – que é a imagem do Deus invisível e o primogênito de toda a criação;
  3. De nossa condição – estávamos sob o império das trevas e fomos transportados para um reino onde temos a redenção e a remissão de nossos pecados;
  4. Da origem de todas as coisas – nele [Cristo] todas as coisas foram criadas e a ele foram destinadas;
  5. Da eternidade e domínio de Cristo – sendo ele antes de todas as coisas e o cabeça da igreja [corpo];
  6. Da expiação de Cristo – por meio dele, todas as coisas foram reconciliadas com Deus, mediante seu sangue na cruz, trazendo a paz.

Estas declarações do apóstolo Paulo aos crentes em Colossos mostram que sua visão era cristocêntrica; portanto, a confissão cristã deve ter Cristo como centro, como Senhor e Salvador. A declaração de Paulo aos Colossos é uma maravilhosa confissão de fé no Cristo vivo, que estava com o Pai no princípio da Criação, que sustenta todas as coisas, e que se deu por todos nós, na cruz do Calvário.

iii. Uma confessionalidade pública

Além de nossa confessionalidade ser bíblica e cristocêntrica, ela também precisa ser pública, no sentido apologético e evangelísticos. Desta forma, precisamos nos ater  três coisas importantes. Vejamos:

  1. Nossa confessionalidade é pública porque nossa fé precisa exposta ao mundo – Mt 10.32; Mc 16.15. Do ponto de vista bíblico, em primeiro momento Jesus proíbe que se divulgue seus feitos poderosos, mas após a descida do Espírito Santo sobre seus discípulos, se faz necessário uma exposição da fé em Cristo, no mundo.
  2. Nossa confessionalidade também é apologética porque nos permite expor, de maneira bíblica, a razão do que cremos – 1Pe 3.15; Sl 119.46; At 4.8-11. Ou seja, expomos o que cremos a fim de garantir que nossos ouvintes nos distingam das muitas crenças existentes no mundo. Tudo isso revelará o que somos, o que nos tornamos e o que precisamos fazer.
  3. Nossa confessionalidade se propõe a ser evangelística, tendo em vista que também pregamos quando declaramos a nossa fé, de maneira bíblica e apresentamos o único Deus, vivo e verdadeiro, capaz de salvar os perdidos – Mt 1.21; At 4.12, 10.43; 1Tm 2.5.

A confessionalidade cristã, conforme expressa na Bíblia, exige assumir publicamente a crença de que Deus é criador do universo, que o ser humano foi criado por Deus para o louvor da sua glória, mas que pecou e é réu de morte, digno do inferno, tendo necessidade de redenção que somente pode ser propiciada pela graça e misericórdia reveladas no sacrifício de Jesus Cristo em nosso lugar.

Conclusão

Estudando a Confissão de Fé de Westminster teremos condições de ter a nossas mãos um conteúdo repleto de conceitos Bíblicos e cristocêntricos a respeito da Criação, da Queda, da Redenção e Consumação de todas as coisas. Essas verdades permanecerão no coração e a na mente que é cativa à Palavra de Deus, regenerada pelo sacrifício expiatório de Cristo e guiada pelo Espírito Santo.

Enquanto a igreja permanecer na obscuridade do conhecimento de Deus e não conseguir responder questões éticas presentes em nossos dias à luz das Escrituras, ela nunca será edificada, não crescerá e muito menos fará a diferença no mundo. Mas, ao se propor a manter-se fiel à Palavra de Deus ela expor e viver os decretos de Deus, então se manterá saudável e pronta para toda e qualquer obra que o Senhor lhe dê.

Bibliografia


Notas

[1] Trecho retirado do site: https://cpaj.mackenzie.br/historia-da-igreja/movimento-reformado-calvinismo/confissoes-reformadas/identidade-reformada-e-confessionalidade/

Fé Reformada | O que é uma igreja reformada? | Parte III

A aliança – Jr 31.31-34 [ARA].

Introdução

Outra característica das igrejas reformadas é sua visão da Bíblia como um todo. O Antigo e o Novo Testamento revela o plano unificado de Deus, geralmente mencionado como Aliança, ou o Pacto da Graça. Basicamente, esse Pacto da Graça diz respeito a declaração de Deus ao seu povo: “…eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” – Jr 31.33. Essa ideia encontra-se, literalmente, de Gênesis ao Apocalipse, pois trata-se do pacto que Deus estabelece com seu povo.

A teologia reformada foi apelidada de “teologia da aliança”, o que a distingue do dispensacionalismo. A teologia dispensacionalista originalmente acreditava que a chave da interpretação bíblica é ‘dividir corretamente’ a Bíblia em sete dispensações, definida na Bíblia de Referencias Scofield original como sendo sete períodos de testes na história da redenção.

As igrejas reformadas sustentam suas convicções teológicas com base em um Deus de aliança ou pacto. Deus estabelece um pacto solene com seu povo e, diferente dos acordos que fazemos hoje – onde em ambas as partes há responsabilidades a se cumprir – essa aliança que Deus estabelece com seu povo envolve apenas uma das partes: Deus.

É Deus quem promete benção, longevidade e prosperidade para o povo que Ele mesmo escolheu. É Deus quem preserva seu povo e o faz vitorioso nas batalhas. É Deus quem abre e fecha as portas, conforme o conselho de sua vontade. É Deus que providência o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Foi Deus quem enviou seu único Filho ao mundo, “…para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

A Confissão de fé de Westminster, em seu artigo VII, seção I, diz:

Tão grande é a distância entre Deus e a criatura, que, embora as criaturas racionais lhe devam obediência como ao seu Criador, nunca poderiam fruir nada dele como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma voluntária condescendência da parte de Deus, a qual foi ele servido significar por meio de um pacto[1].

As alianças

Desta maneira, podemos perceber a insistência de Deus em manter a sua Aliança com seu povo, mesmo quando em vários momentos, o povo não foi fiel ao Senhor. Por causa de Sua aliança, e que não é homem para que minta, Deus manteve sua promessa.

A iniciativa parte sempre de Deus. Ele é quem faz a aliança e proporciona os meio para que ela se cumpra cabalmente. No final, a Sua plena vontade soberana se cumpre e os seus desígnios são estabelecidos e obedecidos. Vejamos:

O desenvolvimento da aliança move-se sistematicamente da criação, passando pela queda da humanidade, até a redenção, quando Deus age para restaurar o que o primeiro homem e a primeira mulher deixaram ao pecar. A partir dos primeiros capítulos de Gênesis, o grande plano redentor de Deus é desdobrado em etapas, primeiro por meio de uma família (Abraão), em seguida através de uma nação (Moisés e Davi), e finalmente concluído no próprio Jesus (mediante sua morte e ressurreição) e oferecido ao mundo.

i. ADÃO – aliança do começo (Gênesis 3.14-15).

A primeira declaração da aliança da redenção contém, em forma de semente, todo princípio básico que se manifestará posteriormente. Deus revela de maneira muito equilibrada os vários elementos constitutivos do seu compromisso de redimir sua criação caída.

Nessa aliança, envolvem: bênçãos e maldições. Mas, no final, a preservação do povo de Deus por meio de uma semente santa e o desenvolvimento desta aliança, são mantidos e cumpridos no desenrolar da história.

ii. NOÉ – aliança da preservação (Gênesis 6.13-14, 17-22).

 Na aliança de Deus com Adão, aparece a primeira referência às duas linhagens de desenvolvimento entre a humanidade. Uma linhagem pertence à semente de Satanás, a outra, à semente da mulher. A aliança com Noé aparece no contexto do desenvolvimento dessas duas linhagens, e manifesta a atitude de Deus para com ambas. Destruição total e absoluta se acumulará sobre a semente de Satanás, enquanto a livre e imerecida graça será derramada generosamente sobre a semente da mulher.

iii. ABRAÃO – aliança da promessa (Gênesis 12.1; 17.1-2).

O aspecto soberano do relacionamento de Deus com Abraão tornou-se muito claro por ocasião da chamada inicial do patriarca. Note-se, portanto, que Deus não dá uma de várias opções à Abraão, mas a palavra de Deus veio a ele em termos de uma ordem solene: “Sai da tua terra, da tua parentela…” (Gn 12.1).

Quando lemos Gênesis 15, percebemos que essa narrativa indica claramente a essência da aliança como sendo um “pacto de sangue soberanamente administrativo”. Essa administração particular do compromisso de Deus de efetuar a redenção pode, apropriadamente, ser chamada de “a aliança da promessa”. De modo soberano Deus confirma as promessas da aliança com Abraão.

iv. MOISÉS – aliança da Lei (Êxodo 34.27-28).

Deus renova o antigo compromisso com o seu povo por meio da aliança de Moisés. A lei serve somente como um modelo único de administração da aliança da redenção. Estabelecido originalmente sob Adão, confirmado sob Noé e Abraão, o relacionamento de aliança renovado sob Moisés não pode perturbar o compromisso de Deus em andamento mediante sua ênfase na dimensão legal do relacionamento de aliança.

v. DAVI – aliança do reino (2Samuel 7.1-17).

Na aliança davídica, os propósitos de Deus de redimir um povo para si atingem seu estágio culminante de realização, no que diz respeito ao Antigo Testamento. Sob Davi, o reino chega. Deus estabelece formalmente a maneira pela qual governará seu povo. A aliança de Deus com Davi centraliza-se na vinda do reino. A aliança serve como o compromisso formalizador pelo qual o reino de Deus vem ao povo.

Antes dessa ocasião, Deus certamente se manifestou como o Senhor da aliança. Mas, agora, ele situa abertamente seu trono em um lugar específico. Em vez de governar de um santuário móvel, Deus reina a partir do Monte Sião, em Jerusalém. Em um sentido progressivo, pode-se dizer que, sob Davi, veio o reino; e não apenas o reino, veio o rei.

vi. CRISTO – aliança da consumação (Jeremias 31.31-34).

Esta última aliança de Deus pode ser apropriadamente designada como a aliança da consumação, em virtude do seu papel específico de unir os vários filamentos (por menores) da promessa da aliança através da história. Essa aliança suplanta as administrações das alianças anteriores. Ela traz, ao mesmo tempo, ao pleno cumprimento, a essência das várias alianças vividas por Israel ao longo da história. A palavra consumação caracteriza perfeitamente a essência dessa aliança.

O conceito apresentado pelo profeta Jeremias é de uma aliança renovada em vez de uma substituição de aliança. Passagens do Novo Testamento revelam que a nova aliança se cumpriu em Jesus Cristo, que realizou o desejo do Senhor de ter um relacionamento pactual renovado com seu povo (1Co 11.25; 2Co 3.6; Hb 9.15, 12.24). Ainda assim, na sua primeira vinda, Cristo apenas deu início à nova aliança. Ele continua a estabelecê-la neste período entre a sua primeira e a segunda vinda e a instituirá plenamente quando voltar em glória.

Conclusão

Uma igreja reformada enfatiza que o Antigo Testamento não é simplesmente um livro judaico, cheio de histórias interessantes e profecias de um futuro reino judaico. Pelo contrário, é na verdade, uma formulação prévia da mesma verdade encontrada no Novo Testamento.

Jesus não começa de novo. Ele simplesmente levou a termo o que já havia sido estabelecido desde Abraão e Moisés. Temas como: salvação por graça, a necessidade de expiação pelo sangue, e a igreja como uma reunião de pessoas resgatadas (incluindo seus filhos), são todos conceitos do Antigo Testamento levados a cumprimento na pessoa e obra de Cristo. Os privilégios estendidos ao povo de Deus sob a “suprema glória” da nova aliança eram apenas sombras do Antigo Testamento (2Co 3.7-18).


[1] de Westminster, Assembleia. Confissão de Fé de Westminster . Edição do Kindle.

Bibliografia
  • Anglada, P. R. (2015). Calvinismo – As antigas doutrinas da graça. Ananindeua, PA: Knox Publicações.
  • Costa, H. M. (2017). Introdução a Cosmovisão Reformada: um desafio a se viver responsavelmente a fé professada. Goiânia, GO: Editora Cruz.
  • Maia, H. (2007). Fundamentos da teologia reformada. São Paulo, SP: Mundo Cristão.
  • Robertson, P. (2002). O Cristo dos pactos. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã.
  • Ryken, P. G., Smallman, S. E., B. C., Lucas, S. M., & Jones, P. S. (2015). Série fé reformada, v.1. São Paulo, SP: Cultura Cristã.
  • Sproul, R. C. (2009). O que é teologia reformada. São Paulo, SP: Cultura Cristã.

Fé Reformada | O que é uma igreja reformada? | Parte II

A soberania de Deus – Rm 11.36.

Introdução

Em nosso último encontro estudamos sobre “As Escrituras” como a regra de fé e prática das igrejas reformadas. Ela tem seus alicerces firmados na Palavra de Deus, sendo submissa a sua absoluta autoridade. Vimos que uma igreja reformada tem consciência de que só se pode conhecer a Deus e sua vontade por meio das Escrituras, porque “…Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto […] porque Deus lhes manifestou” (Rm 1.19 [ALM21]). Concluímos que uma igreja reformada também submete todas as áreas do seu conhecimento as Escrituras Sagradas, e questões mais difíceis também são respondidas a luz delas. Tudo o que precisamos para salvação, disciplina e nosso testemunho no mundo, é regido pela Palavra de Deus.

Agora, dando continuidade sobre o assunto, estudaremos outra característica essencial de uma igreja reformada –  a sua convicção de que Deus é soberano em tudo o que faz. O ponto de nosso estudo é, portanto, “A soberania de Deus”.

O Rev. Hermisten Maia, falando sobre como o homem enxerga a soberania de Deus, diz  que “uma das grandes dificuldades dos homens em todos os tempos é deixar Deus ser Deus […] Aliás, os homens estão dispostos a reconhecer espontaneamente diversas virtudes em Deus, como amor, graça, perdão, provisão etc. Soberania, jamais”![1]

A verdade é que homem sempre quis ter o controle de todas as coisas, inclusive de si mesmo, e – ao mesmo tempo – conhecer todas em sua essência. Isso é uma busca que vem tomando lugar na mente do ser humano desde a Queda; portanto, essa ganância pelo supremo saber e fazer é uma mancha que o pecado produziu no homem.

O primeiro fato essencial da vida, como claramente estabelecido nas Escrituras, é a existência de Deus e a sua supremacia em todas as coisas. Isso é tão importante que, quando o homem é criado e inserido no mundo, Deus já se manifestou em glória e poder por meio de sua criação do mundo e seus agregados (Sl 19.1). Portanto, Deus já era Deus quando o homem nem mesmo existia; e, mesmo depois de existir, Deus continuou sendo Deus, e continuará até além da eternidade!

Deus não é soberano somente pela virtude de ter criado todas as coisas, mas por continuar governando a sua criação de forma ativa. Portanto, as igrejas reformadas, além de estarem alicerçadas nas Escrituras Sagradas, adoram e servem a um Deus que é soberano em si mesmo e que – em sua soberania – cria, governa e sustenta o mundo e tudo o que nele há com seu eterno poder e autoridade.

As Escrituras enfatizam de modo marcante a soberania de Deus. Deus é apresentado como aquele que faz a sua vontade, e essa é a causa última de todas as coisas que há no mundo, assim como preserva e governa tudo o que criou. Tudo existe por causa da sua vontade, e tudo vem a existir pelo seu poder. Tudo vem dele e depende dele.

O apóstolo Paulo escrevendo aos colossenses, descreve Jesus Cristo de maneira gloriosa, cheio de graça e poder, onde todas as coisas estão sustentadas nele e tudo subsiste. Ele diz:

 15 Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, 16 pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. 17 Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste. 18 Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a supremacia. 19 Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude, 20 e por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão no céu, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz (Cl 1.15-20 [NVI]).

Desta forma, Paulo diz à igreja de Colossos que Jesus Cristo é a expressão exata de Deus, sendo ele o Senhor soberano sobre toda a criação – igreja e mundo. Portanto, as igrejas reformadas servem a Cristo como sendo o Soberano sobre toda a criação, tendo autoridade e domínio sobre tudo, conforme declarou a seus discípulos após a sua ressurreição: “…Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18b [ARA]).

Quais as atuações especificas relacionadas a soberania de Deus que as igrejas reformadas sustentam sua fé e prática? Vejamos:

i. A providência

Deus não somente é soberano pela virtude de ter criado todas as coisas, mas por continuar governando a sua criação de forma ativa – isso é chamado de providência. Deus é aquele que determina e providencia os meios para que a sua plena vontade seja uma realidade; porém, isso não tira a responsabilidade do homem, pois tanto a soberania quanto a responsabilidade humana andam lada a lado(Gn 50.19-20; Jo 6.37).

A Confissão de fé de Westminster, em seu artigo V, diz:

SEÇÃO I. Pela sua muito sábia providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável conselho da sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória da sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, e dirige, dispõe e governa todas as suas criaturas, todas as ações e todas as coisas, desde a maior até a menor [2].

ii. A salvação

O aspecto dos propósitos soberanos de Deus que provoca muita discussão é o ensinamento de que Deus escolheu aqueles que receberão a salvação. A melhor declaração nesse sentido vem de um profeta que quis interferir na vontade soberana de Deus, mas ao final, a reconheceu: “…Ao Senhor pertence a salvação” (Jn 2.9). Se fomos salvos é porque Deus veio em nossa procura, não porque nós o procuramos. O anjo disse sobre essa verdade a José, quando falou do nascimento de Jesus: “Ela dará a luz um filhos e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Essa mesma verdade foi confirmada por Jesus: “Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19.10). Portanto, a salvação é uma prerrogativa da vontade soberana de Deus.

Conclusão

As igrejas reformadas dão maior ênfase a soberana vontade de Deus do que qualquer outro meio de se compreender os acontecimentos do mundo e a história da igreja. Os reformadores compreenderam que a vontade de Deus nunca pode ser separada dele e que Ele não existe sem a sua vontade pelo fato de ser um ser pessoal inteligente e sábio.

Esse mesmo Deus soberano criou, sustenta e “…faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Ele é capaz não apenas de trazer a existência todas as coisas, mas também providência para que tudo acontece segundo a sua plena vontade, para o louvor de sua glória e edificação de sua igreja.

Aplicação

Com isso, aprendemos que:

  1. Nada no mundo acontece por acaso. Tudo está no mais absoluto controle de Deus.
  2. Embora “…todas as coisas cooperem para o bem daqueles que amam a Deus…”, elas não acontecem visando a nós única e exclusivamente. Mas, conforme escreveu o apóstolo Paulo aos romanos: “…são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28b). Ou seja, tudo tem um início e fim em Deus.
  3. Precisamos sempre manter o espírito de gratidão e louvor a aquele que nos salvou “…segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1.5b). Nós, que antes estávamos “…mortos em nossos delitos e pecados” (Ef 2.1), agora fomos reconciliados “…para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis” (Cl 1.22).

[1] Maia, Fundamentos da teologia reformada, pág. 80

[2] de Westminster, Assembleia. Confissão de Fé de Westminster . Edição do Kindle.

Fé Reformada | O que é uma igreja reformada? | Parte I

Introdução

Em nosso último encontro estudamos sobre o tema “o que é um reformado de verdade”, e trabalhos o sentido legítimo do que significa ser reformado de verdade e suas aplicações. Concluímos nosso estudo dizendo que:  

O verdadeiro cristão reformado abraça o propósito eterno do Deus soberano ao viver para a sua glória. Ele tem uma mente focada na majestade de Deus. Tem um espírito que lamenta o fato de o pecado existir no mundo. Tem um coração que é cheio de gratidão pela graça de Deus; e tem uma vontade que se submete ao seu santo propósito. Em outras palavras, o verdadeiro cristão reformado é uma pessoa cuja vida, como um todo, é dedicada para a glória de Deus. Ele não apenas reconhece a glória de Deus, mas também é zeloso em promovê-la.

Agora, estudaremos a maneira como uma igreja se qualifica como reformada, pois, não apenas os membros dessa igreja precisam ter uma mente centrada em Deus, mas também toda a estrutura eclesiástica da igreja e sua cosmovisão precisam serem reformados. É quase que impossível dizer que os membros seguem uma cosmovisão reformada de mundo e de si mesmo, mas a igreja como um todo não segue a mesma linha. Ou, o contrário também é quase que impossível de coexistir.

É natural que a igreja e seus membros caminhem juntos naquilo que creem e organizem toda sua estrutura eclesiástica e doutrinaria em torno desta perspectiva. Caso contrário, teremos uma igreja sem identidade confessional, com membros sem uma cosmovisão saudável e, então, o caos estará instalado na igreja do Senhor.

Portanto, é de extrema importância que também sejamos uma igreja com uma cosmovisão reformada, além de apenas seus membros e congregados. Somente quando nossa confissão de fé e nossa prática daquilo que defendemos como sendo verdadeiros, biblicamente falando, estiverem de mãos dadas e centradas em Deus, que viveremos e agiremos de maneira saudável e legítima na sociedade em que vivemos.

Não é estranho que mencionemos o grande reformador João Calvino em nosso estudo, até porque – conforme se vê na história da reforma protestante – ele teve maior influência.

Lutero não tinha a intenção de iniciar uma nova igreja quando pregou suas 95 teses no ano de 1517 na parede do Castelo de Wittenberg. O protesto de Lutero, porém, soou com autoridade, baseado em sua própria e profunda busca pela verdade. Suas convicções de que, para ser fiel ao Senhor, a igreja deveria estar baseada na autoridade absoluta das Escrituras apenas, causou alguns desconfortos a autoridades religiosas de seu tempo.

Essas convicções de Lutero, fizeram com tivesse que deixar a igreja de Roma em 1520 e um novo movimento estava a caminho, a partir de seus seguidores. Depois de alguns anos, infelizmente ocorreu uma divisão entre as novas igrejas associadas a Lutero (luteranos) e os grupos que trabalhavam na Reforma na Suíça e outras partes da Europa; é nesse exato momento que o eventual líder das igrejas Reformadas surge: o reformador francês João Calvino.

A influência de Calvino sobre os líderes da Reforma que iam surgindo foi enorme. Calvino, o principal professor da igreja de Genebra, influenciou muitos líderes da Reforma que iam surgindo. A doutrina que emanava de Genebra tinha enorme aceitação e jovens líderes zelosos e talentosos dirigia-se a Genebra para escapar da hostilidade contra os protestantes em seus países de origem.

Os que em Genebra, adquiriam conhecimento e zelo pela Palavra de Deus, finalmente retomavam para as suas casas como cuidadosos mestres da Palavra, ansiosos por verem seus compatriotas sob a verdadeira fé em Cristo e reformados em uma verdadeira igreja. Essas igrejas receberam diferentes nomes – presbiterianos na Escócia e na Irlanda; puritanos na Inglaterra; Igreja Reformada na Holanda, Alemanha, Suíça, Hungria e Polônia.

Uma igreja reformada tem suas convicções alicerçadas em alguns pilares importantes que os reformadores do século XVI abraçaram e modelaram suas convicções doutrinarias com base nesses pilares. Estudaremos cada um deles em partes, nos próximos encontros. Hoje, meditaremos sobre o primeiro pilar. Vejamos:

As Escrituras

A Confissão de fé de Westminster, em seu primeiro artigo, começa falando o seguinte:

Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, e tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo[1].

É importante que notemos que ela não começa seus artigos/fundamentos de fé falando sobre o ser de Deus, mas por sua Palavra. Isso se dá porque só é possível conhecer a Deus mediante a Sua revelação. A Bíblia é o registro inspirado por Deus a homens santos, desta revelação.

Portanto, tudo o que sabemos de Deus, só o sabemos porque Ele antes, o revelou. Fez isso por meio do Espírito Santo ao inspirar homens santos para que registrassem essa revelação. Não existe outro meio de se conhecer a Deus e conhecer sua obra. As Escrituras Sagradas, do Antigo ao Novo Testamento (66 livros), descrevem toda a vontade de Deus ao mundo criado, ao homem de modo geral e a sua igreja.

O Rev. Paulo Anglada (2013, pág. 38) diz a seguinte questão:

Embora, tudo o que precisamos saber sobre Deus tenha sido revelado por ele e registrado por homens santos movidos pelo Espírito Santo – inspiração, Deus não revelou tudo sobre si. O que está a nossa disposição é o que precisamos para nossa edificação e cumprimento da vontade do Senhor; ou seja, o conhecimento de Deus e sobre Deus é muito maior do que recebemos – Dt 29.29, Sl 139.

Portanto, uma igreja reformada tem seus alicerces firmados na Palavra de Deus. Sendo assim, ela deve ser submissa as Escrituras como sua absoluta autoridade em todos os assuntos de fé e prática. Foi desta forma que os reformadores se posicionaram diante da usurpação dos papas em se colocarem como autoridade máxima da igreja.

Conclusão

Embora seja primariamente uma revelação de Deus e seu plano para trazer a salvação para a terra, a Bíblia toca, pelo menos em princípio, em todas as áreas da vida, servindo, portanto, como a principal fonte para se desenvolver uma cosmovisão e filosofia adequadas.

Sendo assim, partindo da convicção de que o conteúdo das Escrituras poderia ser compreendido e estudado, as igrejas reformadas estavam dispostas a afirmar esse conteúdo em credos e confissões. Entre os mais conhecidos estão o Catecismo de Heidelberg (1563) e a Confissão de fé de Westminster e seus Catecismos [Maior e Breve] (1646), adotados pelas igrejas presbiterianas.

Portanto, o ensino reformado sobre as Escrituras enfatiza que o “testemunho do Espírito Santo”, em vez de provas racionais, estabelece a autoridade das Escrituras. Isso significa finalmente a nossa submissão para com a Bíblia, porque o Espírito Santo dentro de nós dá testemunho dela como sendo um livro inspirado por ele.

Aplicação

  1. Uma igreja reformada tem como fonte única de fé e prática, as Escrituras Sagradas, por entender que se trata da revelação dada por Deus, recebida por inspiração e registrada por homens santos, movidos pelo Espírito Santo.
  2. Uma igreja reformada compreende que só podemos conhecer a Deus e sua vontade por meio das Escrituras, porque “…Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto […] porque Deus lhes manifestou” (Rm 1.19 [ALM21]).
  3. Uma igreja reformada submete todas as áreas do seu conhecimento as Escrituras Sagradas. Questões mais difíceis são respondidas a luz das Escrituras. Tudo o que precisamos para salvação, disciplina e nosso testemunho no mundo, é regido pela Palavra de Deus.

[1] de Westminster, Assembleia. Confissão de Fé de Westminster . Edição do Kindle.

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