Capítulo 1: O cânon e a inspiração das Escrituras | Estudos na CFW (1643-1649)

Introdução

Em nosso último encontro meditamos sobre o Artigo I da Confissão de Fé de Westminster que fala da Revelação de Deus; revelação essa que se manifesta de duas maneiras: Geral e Especial (específica).

A Revelação Geral de Deus se encontra em sua criação: a natureza e tudo mais. Ela é capaz de revelar ao homem que há um Ser maior por trás de toda a criação, mas não é capaz de dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a Salvação; sendo necessário um outro modo de Deus revelar-se ao homem, e esse modo é conhecido como Revelação Especial.

Na Revelação Especial Deus é manifesta especificamente ao homem por meio de seu Filho Jesus Cristo para que conheçamos a sua vontade e sejamos redimidos. Para melhor preservação e propagação desta vontade de Deus revelada, foi igualmente servido fazê-la escrever toda, sendo possível para o homem sem Deus conhecê-lo, assim como a sua plena vontade, por meio das Escrituras Sagradas, onde a revelação de Deus é escrita.

A revelação especial de Deus consiste nos 66 (sessenta e seis) livros da Bíblia Sagrada, também chamados de ‘Cânon Protestante’ que são considerados divinamente inspirados. São apenas nesses livros que Deus revelou-se de forma a redimir e alcançar o ser humano. Somente através desses livros temos um conhecimento suficiente de Deus que nos leva a Cristo e consequentemente à salvação e redenção.

A CFW reconhece os sessenta e seis livros das Escrituras como canônicos e divinamente inspirados. Portanto, ela diz em seu Capítulo primeiro:

SEÇÃO II. Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamento  que são os seguintes, todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de prática:

Lc. 16:29,31; Ef. 2:20; 2 Tm. 3:16; Ap. 22:18-19

SEÇÃO III. Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos.

Lc. 24:27,44; Rm. 3:2; 2 Pe. 1:21

O ensino desses parágrafos da CFW diz respeito especialmente ao cânon das Escrituras. Neles são indicados os critérios empregados para o reconhecimento do cânon Bíblico. Quanto aos livros apócrifos, que foram incluídos na Bíblia católico-romana, são explicitamente considerados não inspirados e, portanto, não autoritativos, não devendo ser entendidos senão como escritos humanos.

Portanto, estes dois artigos do primeiro capítulo da CFW tratam no Cânon e da Inspiração das Escrituras. Vejamos cada um deles:

i. O cânon das Escrituras

A palavra cânon é um termo grego que significa vara reta, régua, regra. Aplicado às Escrituras, o termo designa os livros que se conformam à regra da inspiração e autoridade divinas; ou seja, são chamados de canônicos os livros que foram inspirados por Deus, os quais compõem as Escrituras Sagradas – o cânon bíblico.

Tratando da importância do cânon das Escrituras, podemos nos lembrar do que escreveu Moisés:

1 Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino, para os cumprirdes, para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR, Deus de vossos pais, vos dá. 2 Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos mando – Dt 4.1-2.

Sendo assim, conforme diz GRUDEM (1999, p.28) “aumentar ou diminuir as palavras de Deus impediria o seu povo de obedecer-lhe plenamente, pois as ordens retiradas não seriam conhecidas pelo povo, e as palavras acrescentadas poderiam exigir das pessoas coisas que Deus não ordenou”.

Portanto, o cânon das Escrituras são os livros inspirados por Deus que dispõem das Palavras de Deus para o seu povo. Cada livro, do Antigo (39) e Novo Testamento (27), são divinamente inspirados pelo Espírito de Deus e registrados nas Escrituras, a fim de que o homem de Deus seja ensinado, repreendido, corrigido e educado na justiça divina – 2Tm 3.16.

ii. Os livros apócrifos

A CFW também fala de livros que não foram reconhecidos como divinamente inspirados e que não possuem autoridade na igreja de Deus e, portanto, não fazem parte do cânon das Escrituras, sendo considerados apenas escritos humanos – esses livros são conhecidos como apócrifos[1].

Os apócrifos são livros que fazem parte do cânon da Igreja Católica Romana que também os reconhecem como canônicos, além dos 66 do cânon protestante. Esses livros foram escritos durante o período intertestamentário onde Deus estava em silêncio.

Nesses livros há histórias desse período que descreve a situação do povo, mas que não tem relevância doutrinaria por se tratar de um período em que Deus, durante quatrocentos anos, permaneceu em silêncio. Sendo assim, podemos concluir que os livros canônicos protestantes são aqueles doutrinários que expõem a vontade de Deus para seu povo, e, portanto, inspirados por Deus.

Já nos apócrifos não se pode encontrar o mesmo teor porque nesse período Deus não estava falando: “porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou” – Rm 1.19 [ARA]; e o que Deus não revelou deve permanecer como está, porque não nos pertence – Dt 29.29.

O que de fato tem autoridade e são necessários para a salvação e redenção do homem, assim como sua aproximação de Deus por meio de sua revelação especial, são os livros inspirados/canônicos.

iii. A inspiração das Escrituras

Além de identificar o cânon, esses parágrafos da Confissão de Fé de Westminster também professam a doutrina da inspiração das Escrituras. Conforme diz o apóstolo Paulo à Timóteo “Toda a Escritura é inspirada por Deus…” – 2Tm 3.16a, não apenas parte dela, mas toda ela.

ANGLADA (2013, p.61) diz que essa é uma “doutrina tão importante que pode ser considerada a base de todas as demais; colocá-la em dúvida significa duvidar da autoria divina das Escrituras”, e, fazendo assim, lançaremos “…fora a Bíblia toda e abdicando de sua autoridade e inerrância”.

A doutrina da inspiração das Escrituras está alicerçada no que o apóstolo Pedro disse: “sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” – 2Pe 1.20-21; ou seja, “embora a Bíblia tenha sido escrita por cerca de quarenta pessoas distintas uma das outras, elas escreveram movidas e dirigidas pelo Espirito Santo, de tal modo que tudo o que foi registrado por elas nas Escrituras constitui-se em revelação autoritativa de Deus” (Anglada, 2013, p. 63). Enquanto o propósito da Revelação é comunicar a verdade de Deus, a inspiração assegura a infalibilidade deste registro; sendo confiáveis e autoritativas cada palavra das Escrituras.

Conclusão

O que a CFW propõe é a confiabilidade e reconhecimento das Escrituras por meio de sua canonicidade e inspiração; rejeitando tudo o que não provém de Deus por revelação especial, registrada nas Escrituras por inspiração, nos 66 livros canônicos. Os livros considerados apócrifos não são aceitos como inspirados, mas apenas escritos humanos.

Podemos confiar em cada palavra registrada nas Escrituras Sagradas como Palavra de Deus revelada a homens santos, movidos e inspiração pelo Espírito Santo; e cada Palavra é útil para o nosso ensino, repreensão, correção e educação na justiça divina. Portanto, como igreja sustentada pela Palavra inspirada e canônica, busquemos a nossa edificação e proclamemos toda a verdade de Deus a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.

Bibliografia

  • Anglada, P. R. (2013). Sola Scriptura – A Doutrina Reformada das Escrituras. Ananindeua, PA: Knox Publicações.
  • Grudem, W. A. (1999). Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Vida Nova.
  • Sproul, R. C. (2017). Somos todos teólogos: uma introdução à teologia. São José dos Campos, SP: Editora Fiel.
  • Westminster, A. d. (2008). Confissão de Fé de Westminster. São Paulo, SP: Cultura Cristã.

[1] diz-se de ou obra religiosa destituída de autoridade canônica – Fonte: https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/.

Publicado por Pr. Luiz de Souza

Não ousaria me definir em frases prontas ou palavras que prefiguram alguém que ainda esta em construção. Vivo para que Deus seja conhecido e busco conhecer cada vez mais esse Deus. Minha gratidão é plena ao ser alcançado e resgatado por Jesus, e por isso vivo para que Ele cresça e eu diminua cada vez mais. Pois "A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo". [Ef 3.8]

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