Fé Reformada | O que é uma igreja reformada? | Parte II

A soberania de Deus – Rm 11.36.

Introdução

Em nosso último encontro estudamos sobre “As Escrituras” como a regra de fé e prática das igrejas reformadas. Ela tem seus alicerces firmados na Palavra de Deus, sendo submissa a sua absoluta autoridade. Vimos que uma igreja reformada tem consciência de que só se pode conhecer a Deus e sua vontade por meio das Escrituras, porque “…Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto […] porque Deus lhes manifestou” (Rm 1.19 [ALM21]). Concluímos que uma igreja reformada também submete todas as áreas do seu conhecimento as Escrituras Sagradas, e questões mais difíceis também são respondidas a luz delas. Tudo o que precisamos para salvação, disciplina e nosso testemunho no mundo, é regido pela Palavra de Deus.

Agora, dando continuidade sobre o assunto, estudaremos outra característica essencial de uma igreja reformada –  a sua convicção de que Deus é soberano em tudo o que faz. O ponto de nosso estudo é, portanto, “A soberania de Deus”.

O Rev. Hermisten Maia, falando sobre como o homem enxerga a soberania de Deus, diz  que “uma das grandes dificuldades dos homens em todos os tempos é deixar Deus ser Deus […] Aliás, os homens estão dispostos a reconhecer espontaneamente diversas virtudes em Deus, como amor, graça, perdão, provisão etc. Soberania, jamais”![1]

A verdade é que homem sempre quis ter o controle de todas as coisas, inclusive de si mesmo, e – ao mesmo tempo – conhecer todas em sua essência. Isso é uma busca que vem tomando lugar na mente do ser humano desde a Queda; portanto, essa ganância pelo supremo saber e fazer é uma mancha que o pecado produziu no homem.

O primeiro fato essencial da vida, como claramente estabelecido nas Escrituras, é a existência de Deus e a sua supremacia em todas as coisas. Isso é tão importante que, quando o homem é criado e inserido no mundo, Deus já se manifestou em glória e poder por meio de sua criação do mundo e seus agregados (Sl 19.1). Portanto, Deus já era Deus quando o homem nem mesmo existia; e, mesmo depois de existir, Deus continuou sendo Deus, e continuará até além da eternidade!

Deus não é soberano somente pela virtude de ter criado todas as coisas, mas por continuar governando a sua criação de forma ativa. Portanto, as igrejas reformadas, além de estarem alicerçadas nas Escrituras Sagradas, adoram e servem a um Deus que é soberano em si mesmo e que – em sua soberania – cria, governa e sustenta o mundo e tudo o que nele há com seu eterno poder e autoridade.

As Escrituras enfatizam de modo marcante a soberania de Deus. Deus é apresentado como aquele que faz a sua vontade, e essa é a causa última de todas as coisas que há no mundo, assim como preserva e governa tudo o que criou. Tudo existe por causa da sua vontade, e tudo vem a existir pelo seu poder. Tudo vem dele e depende dele.

O apóstolo Paulo escrevendo aos colossenses, descreve Jesus Cristo de maneira gloriosa, cheio de graça e poder, onde todas as coisas estão sustentadas nele e tudo subsiste. Ele diz:

 15 Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, 16 pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. 17 Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste. 18 Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a supremacia. 19 Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude, 20 e por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão no céu, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz (Cl 1.15-20 [NVI]).

Desta forma, Paulo diz à igreja de Colossos que Jesus Cristo é a expressão exata de Deus, sendo ele o Senhor soberano sobre toda a criação – igreja e mundo. Portanto, as igrejas reformadas servem a Cristo como sendo o Soberano sobre toda a criação, tendo autoridade e domínio sobre tudo, conforme declarou a seus discípulos após a sua ressurreição: “…Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18b [ARA]).

Quais as atuações especificas relacionadas a soberania de Deus que as igrejas reformadas sustentam sua fé e prática? Vejamos:

i. A providência

Deus não somente é soberano pela virtude de ter criado todas as coisas, mas por continuar governando a sua criação de forma ativa – isso é chamado de providência. Deus é aquele que determina e providencia os meios para que a sua plena vontade seja uma realidade; porém, isso não tira a responsabilidade do homem, pois tanto a soberania quanto a responsabilidade humana andam lada a lado(Gn 50.19-20; Jo 6.37).

A Confissão de fé de Westminster, em seu artigo V, diz:

SEÇÃO I. Pela sua muito sábia providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável conselho da sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória da sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, e dirige, dispõe e governa todas as suas criaturas, todas as ações e todas as coisas, desde a maior até a menor [2].

ii. A salvação

O aspecto dos propósitos soberanos de Deus que provoca muita discussão é o ensinamento de que Deus escolheu aqueles que receberão a salvação. A melhor declaração nesse sentido vem de um profeta que quis interferir na vontade soberana de Deus, mas ao final, a reconheceu: “…Ao Senhor pertence a salvação” (Jn 2.9). Se fomos salvos é porque Deus veio em nossa procura, não porque nós o procuramos. O anjo disse sobre essa verdade a José, quando falou do nascimento de Jesus: “Ela dará a luz um filhos e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Essa mesma verdade foi confirmada por Jesus: “Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19.10). Portanto, a salvação é uma prerrogativa da vontade soberana de Deus.

Conclusão

As igrejas reformadas dão maior ênfase a soberana vontade de Deus do que qualquer outro meio de se compreender os acontecimentos do mundo e a história da igreja. Os reformadores compreenderam que a vontade de Deus nunca pode ser separada dele e que Ele não existe sem a sua vontade pelo fato de ser um ser pessoal inteligente e sábio.

Esse mesmo Deus soberano criou, sustenta e “…faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Ele é capaz não apenas de trazer a existência todas as coisas, mas também providência para que tudo acontece segundo a sua plena vontade, para o louvor de sua glória e edificação de sua igreja.

Aplicação

Com isso, aprendemos que:

  1. Nada no mundo acontece por acaso. Tudo está no mais absoluto controle de Deus.
  2. Embora “…todas as coisas cooperem para o bem daqueles que amam a Deus…”, elas não acontecem visando a nós única e exclusivamente. Mas, conforme escreveu o apóstolo Paulo aos romanos: “…são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28b). Ou seja, tudo tem um início e fim em Deus.
  3. Precisamos sempre manter o espírito de gratidão e louvor a aquele que nos salvou “…segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1.5b). Nós, que antes estávamos “…mortos em nossos delitos e pecados” (Ef 2.1), agora fomos reconciliados “…para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis” (Cl 1.22).

[1] Maia, Fundamentos da teologia reformada, pág. 80

[2] de Westminster, Assembleia. Confissão de Fé de Westminster . Edição do Kindle.

Publicado por Pr. Luiz de Souza

Não ousaria me definir em frases prontas ou palavras que prefiguram alguém que ainda esta em construção. Vivo para que Deus seja conhecido e busco conhecer cada vez mais esse Deus. Minha gratidão é plena ao ser alcançado e resgatado por Jesus, e por isso vivo para que Ele cresça e eu diminua cada vez mais. Pois "A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo". [Ef 3.8]

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