Fé Reformada | O que é um reformado de verdade?

Caro leitor

Esses estudos foram inicialmente ministrados nos cultos de doutrina as quartas-feiras na congregação presbiteriana na cidade de Parauapebas, Pará – no bairro Cidade Jardim. Todo o material vou desenvolvido visando os membros e congregados desta congregação, mas também poderão contribuir para o seu crescimento sobre o assunto!


Introdução

Antes de iniciar nosso estudo sobre a Fé Reformada, é preciso que se esclareça algumas coisas importantes:

  1. Não utilizaremos o termo “calvinista” para definir nossa cosmovisão; até porque a fé reformada não se resume apenas a Calvino, embora ela tenha dado grande contribuição doutrinária para a igreja. Mas, o termo “reformado” melhor descreve o que queremos dizer quando pensamos em “Teologia Reformada”.
  2. Não estudaremos os “Reformadores” em si mesmo, embora iremos citá-los vez por outra em nosso estudo. Mas, o foco de nosso estudo estará voltado para as “doutrinas/fundamentos” da Fé Reformada.
  3. Não lançaremos “doutrina nova” para a igreja IPB, apenas estudaremos com mais detalhes a Fé Reformada que já abraçamos como fundamento para nossa cosmovisão cristã.

O Rev. Hermisten Maia (2007, pág. 11), em sua obra “Fundamentos da Teologia Reformada”, define Teologia Reformada da seguinte forma:

Trata-se da teologia oriunda da Reforma (calvinista) em distinção à luterana. O designativo “reformada” é preferível ao “calvinista” – ainda que o empreguemos indistintamente –, considerando o fato de que a teologia reformada não provém estritamente de Calvino.

O editor do livreto dos símbolos de Fé de Westminster, disse o seguinte:

A igreja Presbiteriana é confessional, identifica-se pela aceitação e defesa de seus símbolos de fé e, ao fazê-lo, propaga a melhor sistematização de teologia já produzida em todos os tempos. Especialmente em dias como os de hoje, quando “ventos de doutrina” sopram de todos os lados, a firmeza doutrinária histórica será um elemento importante para a sobrevivência das Igrejas de origem Reformada, e, melhor ainda, será também a contribuição delas para grupos novos que vão surgindo sem o mesmo embasamento na Palavra de Deus, nossa Regra Única e Infalível de Fé e de Prática[1].

As doutrinas da graça, conhecidas principalmente entre os Reformados, são convicções sobre teologia centrada em Deus. Com elas aprendemos a preservar tudo o que é certo e bom na vida cristã: humildade, santidade, gratidão, adoração, oração e evangelismo.

O verdadeiro “cristão reformado” lida com essas coisas diariamente com vistas a tornar-se mais piedoso no que faz, para a glória de Deus e edificação da igreja. Ser reformado, no entanto, envolve algumas normativas relacionadas as doutrinas da graça. Vejamos:

i. Uma mente centrada em Deus

Enquanto a teologia reformada lida muito mais que uma forma de pensar, ela começa trabalhando a mente da pessoa que abraça essa cosmovisão, pois é na mente o lugar por onde as Escrituras também começam transformando. Paulo escreve aos Romanos dizendo: “…não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente…” (Rm 12.2a).

O que ocupa a mente de um cristão reformado é a glória de Deus. O texto do profeta Isaias sobre sua visão de Deus em seu trono de glória (Is 6), reflete o que estamos falando. Isaías é levado à presença gloriosa de Deus e ali a majestade, santidade e graça manifestam-se em resplendor e grande glória diante dele.

Isaías se vê perdido por causa de seu pecado, mas também se humilha diante de Deus,  reconhece sua condição pecaminosa e lamenta. Tudo isso acontece simultaneamente. Parece que é isso que Deus faz conosco: quando sua glória é manifesta, não apenas vemos seu esplendor e majestade, mas também sua santidade e nossa pecaminosidade; só então compreendemos nossa necessidade do perdão divino.

A forma que Deus faz um cristão “reformado” é trazendo-o para esta sala do trono, para que ele se curve diante de sua majestade suprema e O contemple. O verdadeiro reformado vê o trono de glória de Deus no lugar central de sua vida e mantém Deus lá. Deus é o centro de sua adoração; no verdadeiro culto a atenção é desviada das coisas terrenas e reverentemente fixada em Deus e em sua glória.

Deus também é o centro do pensamento do verdadeiro cristão reformado. Seu objetivo é levar “…cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.5b), e para esse fim o seu raciocínio começa e termina em Deus. Sua visão da soberana majestade molda sua inteira forma de pensar, enchendo sua mente com pensamentos de Deus e sua glória e, dessa forma, o Deus da graça se torna o centro de toda a sua vida.

ii. Um espírito arrependido

Embora a fé reformada começa com a mente, ela não para por aí. A fé reformada não é apenas um conjunto de doutrinas, mas um estilo de vida como um todo. Deus revelou as doutrinas da graça não para a instrução de nossas mentes simplesmente, mas em última instância, para a transformação de nossas vidas.

A exemplo de Isaías, que diante do “Santo […] Senhor dos exércitos…” (Is 6.3) se prostou e disse: “…ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos” (Is 6.5), o cristão reformado também é constringido pelo Espírito Santo à perceber a sua iniquidade e arrepender-se de seus pecados.

Sendo assim, o momento de contrição e confissão de pecados no culto público, não é algo mecânico e constrangedor para tal cristão, mas de extrema importância para uma verdadeira adoração comunitária ao Deus majestoso em poder e glória.

Portanto, uma verdadeira visão da majestade soberana de Deus sempre inclui uma dolorosa consciência de nossa própria total depravação. Quanto mais vemos a glória de Deus, mais reconhecemos a nossa necessidade de sua graça.

iii. Um coração grato

Um cristão reformado de verdade mantém seu coração em plena gratidão a Deus não apenas por seus feitos poderosos no mundo, mas também por sua bendita graça e misericórdia em perdoar seus pecados.

Deus não deixou Isaías em seus pecados. Isaías teve plena consciência que era um pecador e que não era santo para poder permanecer na presença do Deus três vezes santo. Mas, uma vez que seu pecado foi confessado verdadeiramente, mediante a graça e misericórdia de Deus, ele recebeu o perdão necessário (Is 6.6-7).

Esta foi uma demonstração poderosa da graça salvadora de Deus. O anjo pegou uma brasa do altar, em outras palavras, a brasa veio do lugar de sacrifício onde um cordeiro tinha sido oferecido para expiar o pecado. Portanto, Isaías foi reconciliado com Deus, com base em um sacrifício de sangue; e isso é fundamental na teologia reformada, pois – como diz o autor aos Hebreus – “…sem derramamento de sangue, não há remissão de pecados” (Hb 9.22).

Na nova dispensação, a graça e misericórdia de Deus é manifesta por meio de Jesus Cristo. É, portanto, na morte de Jesus na cruz que um sacrifício expiatória é realizado e toda a culpa é removida daquele que crê. A crucificação de Jesus, na realidade, serviu para realizar a nossa redenção.

A obra do Espírito Santo é aplicar essa redenção na vida do pecador, de forma individual. Deus faz isso através de sua graça irresistível, como se estivesse tocando a brasa da expiação de Cristo diretamente nos lábios impuros do nosso pecado.

A única resposta adequada a essa maravilhosa graça é uma gratidão profunda. Se Deus nos tocou com a sua misericórdia, garantindo assim, de maneira infalível, a nossa salvação, então temos que agradecê-lo de coração.

iv. Uma vontade submissa

Outra característica de um cristão reformado de verdade é submeter a sua vontade a vontade de seu Senhor. Por estar tão impressionado com a majestade de Deus e tão agradecido por seus pecados terem sido perdoados, Isaías se submete à Deus (Is 6.8). Não houve nenhuma hesitação, nenhuma negociação, nenhuma discussão, nem argumentação. A graça soberana o constrangeu a entregar a sua vontade à vontade de Deus e, assim, dedicar sua vida toda ao serviço de Deus.

Mesmo diante da difícil tarefa, Isaías estava determinado a cumprir a vontade do Senhor. Deus o estava enviando para pregar julgamento às pessoas que não dariam ouvidos à sua mensagem nem jamais se arrependeriam. Pelos padrões convencionais, Isaías estava destinado a se tornar um profeta fracassado, um evangelista extremamente malsucedido.

Não houve relutância da parte de Isaías quanto a missão. Ele apenas quis saber quanto tempo essa missão extremamente difícil iria durar. Esse tipo de submissão é a marca de alguém que decidiu abraçar as doutrinas da graça.

As doutrinas da graça nos ensinam que, na salvação, Deus faz por nós o que não podemos fazer por nós mesmos. Isso é verdade em cada passo do caminho. Muito antes que pudéssemos escolher a Deus, o Pai nos escolheu em Cristo (eleição incondicional). Quando éramos incapazes de remover a nossa culpa (depravação total), o Filho morreu por nossos pecados (expiação limitada). Quando nós não viríamos a Deus com fé, o Espírito nos chamou (graça eficaz) e vai nos manter no caminho da salvação até o fim (perseverança). Portanto, as doutrinas da graça requerem, assim, que o pecador aceite a soberania de Deus na salvação.

O verdadeiro evangelismo é totalmente dependente de Deus para o seu sucesso: a regeneração da mente e do coração do pecador é obra do Espírito de Deus. Não depende de o cristão dizer as palavras certas ou usar a técnica mais eficaz. O verdadeiro cristão reformado se rende à vontade de Deus em compartilhar o evangelho, porque a soberania de Deus na graça dá a única esperança de sucesso.

v. Uma vida santa

Dependência absoluta de Deus, com uma rendição completa à sua vontade, não diminui a necessidade de um crescimento espiritual ativo. Pelo contrário, o verdadeiro cristão reformado busca continuamente a santidade de sua vida.

O cristianismo não é uma religião com base no desempenho. Aqueles que são salvos pela graça também vivem pela graça e seu  crescimento na graça é devido ao trabalho gracioso do Espírito de Deus.

A doutrina da depravação total mostra claramente a nossa falta de santidade. Nós precisamos da graça de Deus, em primeiro lugar, porque somos pecadores. Se fomos criados para viver em um relacionamento com Deus, algo terá que ser feito com o nosso pecado, pois sem santidade “…ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Ao expor o nosso pecado, a doutrina da depravação total nos convence a procurar a santidade de Deus, em Deus.

Sabemos que fomos eleitos por Deus, antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Mas, qual a ligação entre a santidade e a eleição incondicional? Se a eleição é um decreto eterno que Deus emitiu antes do início dos tempos, Deus nos escolheu exatamente com o propósito de fazer-nos santos; pois, seu desejo – como diz Paulo (Ef 1.4) – era que nos apresentássemos perante ele santos e irrepreensíveis. Nós fomos escolhidos em Cristo com o propósito explícito de ser santificado em Cristo. O apóstolo Paulo diz a mesma coisa quando escreve aos romanos falando de nossa predestinação (Rm 8.29).

Resumidamente falando, o propósito de Deus para nossa eleição é a nossa santificação!

vi. Um propósito glorioso

A santidade não é um fim em si mesmo, mas também serve para que Deus seja glorificado. Como Paulo disse aos efésios que a eleição promove a santificação, ele continua – na mesma passagem – dizendo o fim último de tudo isso: “…a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo” (Ef 1.11-12). O objetivo final da nossa eleição e, portanto, da nossa santificação, é a glória de Deus.

A doutrina reformada é realista e tem um compromisso com a verdade. Portanto, assim como ela defende a nossa salvação, redenção, reconciliação, santificação e glorificação em Cristo Jesus, ela também prega o sofrimento como parte do processo.

Isso porque a vida cristã, verdadeiramente bíblica, segue os moldes da vida de Cristo. Da mesma maneira que foi a vida de Cristo, assim também será a vida do cristão: do sofrimento para a glória. Primeiro a humilhação, depois, exaltação; a cruz antes da coroa.

O fato de que Deus é soberano significa que todas as coisas (inclusive os nossos sofrimentos) servem para cumprir o seu propósito final de trazer glória para si mesmo. As lutas e dificuldades que enfrentamos não são causas últimas do pecado em nossa vida – ele tem uma contribuição na intensidade, mas não no propósito último – mas, são fruto da graça de Deus em nos permitir passar por elas e ainda desfrutarmos de seu favor e provisão, sem que isso afete nossa salvação.

Conclusão

O verdadeiro cristão reformado abraça o propósito eterno do Deus soberano ao viver para a sua glória. Ele tem uma mente focada na majestade de Deus. Tem um espírito que lamenta o fato de o pecado existir no mundo. Tem um coração que é cheio de gratidão pela graça de Deus; e tem uma vontade que se submete ao seu santo propósito. Em outras palavras, o verdadeiro cristão reformado é uma pessoa cuja vida, como um todo, é dedicada para a glória de Deus. Ele não apenas reconhece a glória de Deus, mas também é zeloso em promovê-la.


[1] Símbolos de Fé, 2018, pág. 8.

Bibliografia
  • Anglada, P. R. (2015). Calvinismo – As antigas doutrinas da graça. Ananindeua, PA: Knox Publicações.
  • Costa, H. M. (2017). Introdução a Cosmovisão Reformada: um desafio a se viver responsavelmente a fé professada. Goiânia, GO: Editora Cruz.
  • Maia, H. (2007). Fundamentos da teologia reformada. São Paulo, SP: Mundo Cristão.
  • Ryken, P. G., Smallman, S. E., B. C., Lucas, S. M., & Jones, P. S. (2015). Série fé reformada, v.1. São Paulo, SP: Cultura Cristã.
  • Sproul, R. C. (2009). O que é teologia reformada. São Paulo, SP: Cultura Cristã.

Publicado por Pr. Luiz de Souza

Não ousaria me definir em frases prontas ou palavras que prefiguram alguém que ainda esta em construção. Vivo para que Deus seja conhecido e busco conhecer cada vez mais esse Deus. Minha gratidão é plena ao ser alcançado e resgatado por Jesus, e por isso vivo para que Ele cresça e eu diminua cada vez mais. Pois "A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo". [Ef 3.8]

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