A verdadeira alegria | Salmo 126

A alegria é algo que todos querem, mas poucos desfrutam verdadeira e plenamente. Muitos buscam e não encontram, outros, enquanto perdidos em seus delitos e pecados, são tomados pela mão do Senhor Jesus e plenamente satisfeitos em prazer eterno.

A maioria das pessoas procuram satisfazer seus prazeres em bebedices, festas, prostituições e outros pecados que de fato produzem uma alegria momentânea e imperfeita. Outros, por meio do Espírito de Deus, são tomados pelo gozo eterno, mesmo em momentos em que as lágrimas são reflexo de dor e sofrimento, ainda assim, seu coração exulta em saber que tudo coopera para o seu bem e que, no final, estaremos mais fortes e perseverantes na vida cristã.

J. Stephen Yuille disse em seu livro “Saudades de Casa”, uma verdade importante que os peregrinos precisão compreender:

A alegria dos sentidos baseia-se nas coisas do presente, ao passo que a alegria da fé encontra-se em coisas futuras; a alegria dos sentidos está no bem do corpo, ao passo que a alegria da fé está no bem da alma; a alegria dos sentidos é governada pelas circunstâncias, ao passo que a alegria da fé é governada por promessas; e a alegria dos sentidos descansa no mundo, ao passo que a alegria da fé descansa em Deus[1].

Basicamente, o que o autor diz é que é muito mais fácil viver pela alegria dos sentidos do que da fé, pois a nossa alegria é, muitas vezes, terrena e não celestialmaterial ao invés de espiritual.

Alguns comentaristas dizem que este salmo provavelmente foi escrito por Esdras descrevendo quando os israelitas foram libertos do seu exílio na Babilônia, retornando alguns para Jerusalém e outros para Judá.

O profeta Jeremias havia profetizado que depois de setenta anos de cativeiro os hebreus seriam libertos – Jr 25.8-14; 29.10:

Jeremias 25:8-14. 8 — Portanto, assim diz o Senhor dos Exércitos: Visto que vocês não escutaram as minhas palavras, 9 eis que mandarei buscar todas as tribos do Norte, diz o Senhor, e também Nabucodonosor, rei da Babilônia, meu servo,  e os trarei contra esta terra, contra os seus moradores e contra todas estas nações ao redor, e os destruirei totalmente. Farei deles um objeto de horror e de vaias, ruínas perpétuas. 10 Farei cessar entre eles o som das festas e da alegria, a voz do noivo e a voz da noiva, o ruído das pedras do moinho e a luz das lamparinas. 11 Toda esta terra virá a ser uma ruína, objeto de horror, e estas nações servirão o rei da Babilônia durante setenta anos.  12 Acontecerá, porém, que, quando se cumprirem os setenta anos, castigarei o rei da Babilônia e aquela nação, a terra dos caldeus, por causa de sua iniquidade, diz o Senhor; farei deles ruínas perpétuas.  13 Farei com que se cumpram sobre aquela terra todas as minhas ameaças que proferi contra ela, tudo o que está escrito neste livro e que Jeremias profetizou contra todas as nações. 14 Porque também eles serão escravos de muitas nações e de grandes reis, e assim lhes retribuirei segundo os seus feitos e segundo as obras das suas mãos.

Jeremias 29:10. Assim diz o Senhor: “Logo que se cumprirem para a Babilônia setenta anos, atentarei para vocês e cumprirei a promessa que fiz a vocês, trazendo-os de volta a este lugar.

O salmo é um cântico cantado pelos peregrinos que estavam em direção à sua terra, após esse período de cativeiro. Nele também encontramos um lamento da comunidade de Israel que lembra esse período passado em que Deus demonstrou misericórdia sobe seu povo e pede uma nova demonstração dessa mesma misericórdia ao lhes conceder um novo começo.

Perceba três detalhes importantes. Primeiro, neste Salmo há duas seções principais: (1) Uma recordação da restauração passada – v.1-3; e, (2) Uma oração pela restauração futura – v.4-6. Segundo, a palavra “sorte” não é sinônimo de riqueza ou tesouro terrenos, nem é sinônimo de “boa sorte”; ela refere-se ao favor de Deus ao libertar/restaurar seu povo.

Na tradução do texto hebraico, a versão Almeida Revista e Corrigida diz: “Quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, estávamos como os que sonham” – v.1, referindo-se à restauração/libertação dos cativos. Isso nos mostra que a sorte mencionada é a restauração ou libertação. Terceiro, o salmista olha para trás na primeira seção como quem celebra pelos grandes feitos de Deus, ao passo que, na segunda seção, ele olha para a frente[2], como quem anseia por algo da parte de Deus que ainda não aconteceu, pois suas palavras finais expressam esperança, fé e confiança em uma colheita prospera e jubilosa após uma semeadura regada com lágrimas.

Por assim dizer, a métrica do Salmo 126 reflete a restauração das forças em Deus. Este salmo é a poesia do sorriso de uma ponta a outra. Não existe lei que nos proíba de ter deleite em Deus e o salmista, por um lado, reflete essa a alegria pelo favor concedido por Deus e, por outro lado, demonstra um anseio por um favor contínuo e completo da parte de Deus.

O salmista apresenta três lições importantes que nos ajudam a compreender a verdadeira alegria que precisa ser preservada no Senhor, enquanto peregrinamos neste mundo. Vejamos:

i. Recordar o que Deus fez -v.1-3
  • Quando o Senhor restaurou a sorte de Sião – v.1ª (pretérito perfeito).
  • Grandes coisas o Senhor tem feito por eles – v.2b. Testemunho das nações estrangeiras em relação a Israel.
  • Grandes coisas o Senhor fez por nós – v.3ª. Testemunho de Israel às nações.

Trazer à memória o que foi feito é muito importante para o povo de Deus. Infelizmente estamos acostumados a olhar apenas para nós mesmos como fonte de escape e de vitória; na verdade, é exatamente isso que a teologia triunfalista e da prosperidade ensina: “Você pode vencer! Você é a pessoa mais importante pra Deus! Você merece que Deus te dê do melhor dessa terra!” Faltam dizer: “Deus, sem mim, nada podes fazer”. É engraçado, mas triste ao mesmo tempo, pois mostra o declínio da humanidade diante de Deus.

Os cristãos precisam recordar com alegria os grandes feitos de Deus, seguindo o exemplo do salmista que diz:

(Salmos 150.2 [NVI]) Louvem-no pelos seus feitos poderosos, louvem-no segundo a imensidão de sua grandeza!

(Salmos 113.1 [NVI]) Aleluia! Louvem, ó servos do Senhor, louvem o nome do Senhor!

ii. Reagir corretamente diante do que Deus fez
  • Ficamos como quem sonha – v.1b (desejo x realidade);
  • A nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo – v.2a;
  • Estamos alegres – v.3b;

Israel, por um momento, achou que o que estavam vivendo não era uma realidade, pois, humanamente falando, não havia como eles escaparem do cativeiro. Mas, logo em seguida, veio a certeza de que não estavam sonhando e que de fato estavam vivendo uma realidade que somente Deus poderia executar.

A convicção foi tamanha que eles louvaram com muita alegria e grande júbilo, ao Senhor. Sua demonstração de prazer na presença do Senhor foi tamanha que as nações vizinhas puderam testificar do que havia acontecido com os israelitas. Note o que essas nações disseram: “…Grandes coisas o Senhor tem feito por eles” – v.2b; perceba que elas foram capazes de associar a libertação do povo à Deus. Isso porque Israel também soube glorificar a Deus de maneira correta, e não a si mesmo ou a força de seu braço, muito menos ao imperador Ciro por ter decretado a soltura deles.

iii. Orar alegremente pelo o que Deus ainda fará – v.4-6

Esses versículos aguardam as misericórdias que ainda eram desejadas. Os que tinham saído do cativeiro continuavam angustiados, mesmo em sua própria terra (Ne 1.3), bem como muitos dos que permaneceram na Babilônia; por isso, eles regozijam-se com tremor e carregam em seu coração os sofrimentos que ainda têm de ser tratados.

Na oração do salmista encontramos algumas lições importantes. Vejamos:

  1. Dependência e fé no Senhor – v.4a;
  2. Figura geográfica – como as torrentes no Neguebe (território árido ao sul de Judá com canais secos. Com as torrentes, a terra se tornaria verde novamente, dando oportunidade para plantar e certeza de colheita abundante);
  3. Figura da agricultura – os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão;
  4. Certeza de sofrimento – v.5a;
  5. Certeza de colheita – v.5b;
  6. Convicção de continuidade na semeadura – v.6a;
  7. Convicção de fartura – v.6b;

Enquanto estamos aqui neste mundo ainda haverá assunto sobre os quais orar, mesmo quando estamos bem abastecidos. E, quando estamos livres e em prosperidade, não devemos negligenciar nossos irmãos que enfrentam problemas e restrições[3].

Aplicação

  1. Precisamos aprender que a verdadeira felicidade não provém das circunstâncias temporais e materiais, mas das realidades eternas e espirituais[4].
  2. A verdadeira alegria só é possível para aqueles que estão em Jesus, pois somente Ele é capaz de nos livrar da perdição eterna, de tirar toda dor, de consolar nossos corações, de nos salvar do grande cativeiro e nos entronizar nos céus.
  3. Somente os crentes em Jesus saberão que, por enquanto, até podemos chorar, mas chegará o dia que o nosso choro se converterá em alegria em razão da chegada de nosso Senhor Jesus para nos buscar – João 16.16-22.
  4. Devemos tomar cuidado para não nos entristecer com aquilo que deveria trazer alegria e não nos alegrar com aquilo que deveria nos entristecer. Como disse Jesus ao apóstolo João no livro de apocalipse – Apocalipse 21.4-8.
Conclusão

Os que semeiam com lágrimas de sofrimento piedoso colhem com a alegria do perdão selado e da paz estabelecida. O que semeia no Espírito, nesse vale de lágrimas, do Espírito ceifará a vida eterna e, na verdade, essa será uma colheita jubilosa. Como disse Jesus em seu sermão na Montanha: Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados – Mt 5.4.




  • [1] Yuille, J. Stephen. Saudades de Casa: Uma jornada através dos Salmos dos Degraus (pp. 90-91). CLIRE/Os Puritanos. Edição do Kindle.
  • [2] Yuille, J. Stephen. Saudades de Casa: Uma jornada através dos Salmos dos Degraus (p. 89). CLIRE/Os Puritanos. Edição do Kindle.
  • [3] Henry, Matthew. Comentário Bíblico – Antigo Testamento Volume 3 (Comentário Bíblico de Matthew Henry). CPAD. Edição do Kindle.
  • [4] Yuille, J. Stephen. Saudades de Casa: Uma jornada através dos Salmos dos Degraus (p. 90). CLIRE/Os Puritanos. Edição do Kindle.


Referências

Calvino, J. (2009). Salmos Volume 4 – Série de Comentários Bíblicos. São José dos Campos, SP.: Editora Fiel.

Costa, F. M. (07 de Dezembro de 2018). A restauração de Deus. Fonte: Voltemos ao Evangelho: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/12/a-restauracao-de-deus/

Wiersbe, W. W. (2006). Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, volume III – Poéticos. Santo André, SP.: Geográfica Editora.

Yuille, J. S. (2017). Saudades de Casa – Uma jornada através dos Salmos dos Degraus. Recife, PE.: Editora Os Puritanos.

Publicado por Pr. Luiz de Souza

Não ousaria me definir em frases prontas ou palavras que prefiguram alguém que ainda esta em construção. Vivo para que Deus seja conhecido e busco conhecer cada vez mais esse Deus. Minha gratidão é plena ao ser alcançado e resgatado por Jesus, e por isso vivo para que Ele cresça e eu diminua cada vez mais. Pois "A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo". [Ef 3.8]

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