Fé inabalável | Salmo 125

Introdução

A confiança é algo que tem se perdido nos últimos tempos. Traições, amizades circunstâncias e movidas por interesses particulares, tem sido a âncora dos relacionamentos. Porém, o povo de Deus precisa resgatar a fé e confiança no Deus que os libertou das trevas com suas mãos poderosas, a fim de que fossemos salvos e guardados seguros nele mesmo.

Somos chamados a mantermos firmes no Senhor e na força do seu poder, na certeza de que Ele é poderoso para nos manter seguros e protegidos de todo o mal. Precisamos ser aquele tipo de cristão que, acima de tudo, está a fé no Senhor. Fé esta que se mantém inabalável, mesmo em circunstâncias difíceis, tudo isso porque Ele, o nosso Senhor, é a nossa verdadeira segurança.

Como diz o Dr. Wiersbe (2006, pág. 322), este salmo fala de três tipos de pessoas: 1. OS FIÉIS – “os que confiam no Senhor (v.1), também chamados de “justos” e “bons” (v.3-4); 2. OS TRANSIGENTES – que negociam com o inimigo (v.3); e, 3. OS APÓSTATAS – que escolhem trilhar o caminho errado (v.5).

O propósito deste salmo é, especificamente, apontar em que lugar aqueles que são fiéis ao seu Senhor, se encontram. Segundo o salmista, embora sofram fortes oposições por parte de seus inimigos (v.3), eles não são abalados (מוט mowt: ser derrubado); mas se mantém firmados e seguros para sempre, no SENHOR.

O motivo desta confiança e firmeza plena está no fato de que suas vidas estão no SENHOR (יהוה Y ̂ehovah ); e não apenas por meio de uma confissão pública, mas também mediante uma convicção de que Deus é poderoso para guarda-los seguros. Essa convicção é movida por uma que se mostra inabalável de forma contínua e eterna, no SENHOR.

João Calvino (2009, Pág. 356), comenta este salmo da seguinte forma:

Os fiéis, vivendo misturados com os ímpios neste mundo, parecem viver expostos a todos os males desta vida, assim como as demais pessoas. Por isso, o profeta [salmista], comparando-os com Jerusalém, mostra que os fiéis são defendidos por uma muralha inexpugnável [que resiste a qualquer investida]. E, se Deus, em algum tempo, tolera que eles sejam atingidos pela maldade dos perversos, exorta-os a que nutram boa esperança. No entanto, Ele faz, ao mesmo tempo, distinção entre os verdadeiros e os falsos israelitas, para que os hipócritas não apliquem a si o que este Salmo diz a respeito da segurança dos justos.

Ou seja, Calvino percebeu a distinção que o salmista apresenta entre “os que confiam no Senhor” e “os ímpios”. Para Calvino, esta é uma realidade que precisa ser compreendida pela a igreja do Senhor, pois, mediante este princípio, observa-se que sim, a fé é extremamente importante na vida dos verdadeiros crentes. Com ela, os que confiam no Senhor poderão sentir-se seguros, assim como a cidade de Jerusalém, cercada por montes, estava segura. Com esta fé, os israelitas poderiam desfrutar da verdadeira paz: a presença do SENHOR com eles (v.2).

Nada traz mais segurança e confiança do que a presença do SENHOR no meio do seu povo. Jesus, para tranquilizar seus discípulos quanto aos desafios da missão, ele diz: “…E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mateus 28.20b). Em outro lugar, ele diz: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco” (João 14.16). Ou seja, o que faz toda a diferença na vida cristã, enquanto estamos enfrentando os desafios desta vida, é a presença do Senhor. Com ela, podemos ter a confiança de que estamos seguros.

Com isso não queremos dizer que, embora guardados e protegidos pela presença do Senhor, estamos isentos dos ataques dos inimigos. Um puritano[1] escreveu dizendo:

O compromisso de Deus de fortalecer e cercar seu povo não é uma promessa de lhes dar uma vida fácil – sem oposições nem perturbações. Deus jamais promete algo assim ao seu povo. Ele nunca nos promete que passaremos pela vida ilesos e livres dos efeitos negativos da Queda.

Essa não é uma promessa que o evangelho nos traz. Na verdade, ele apresenta totalmente o contrário:

Tg 1.2 Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações

Rm 5.3 E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança

1 Pe 1.6 Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações

Jo 16.33 Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.

Essa é a realidade que enfrentamos nesta vida, pois se tudo fosse a “mil maravilhas”, não queríamos sair deste mundo. Não iríamos desejar a volta de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Não teríamos prazer pela presença do Senhor, pois ela não seria necessária. Mas, por causa das trevas que regem este mundo, nós [o povo de Deus], como peregrinos, desejamos a volta de nosso Senhor e Rei, Jesus Cristo.

Essa expectativa da vinda do Senhor só é mantida na mente e coração daqueles que confiam nele e que creem plenamente em seu poder e suas promessas. É por essa razão que somos chamados a vivermos por meio de uma fé inabalável.

O salmista, falando de sua confiança no Senhor, apresenta três certezas que essa fé inabalável pode produzir em nós. Vejamos:

i. A certeza da proteção de Deus – v.1-3

Esta certeza está inteiramente ligada à nossa confiança em Deus. Confiar em Deus é descansar naquilo que ele é. É descansar em seu poder; é saber que Ele está entronizado nos céus e seu governo não é desafiado e perturbado por ninguém. Confiar em Deus é descansar em sua bondade e graça; ele nos tomou para si mesmo como seus filhos; e Ele é um pai compassivo que quer o melhor para nós, seus filhos.

Tendo isso em mente, podemos ter a certeza de que estamos protegidos e guardados em suas mãos poderosas. Certos de que, assim como a cidade de Jerusalém estava bem protegida por montes a sua volta, assim também estamos: cercados pelo Senhor desde agora e para sempre.

ii. A certeza da provisão de Deus – v.4

É interessante observar que o salmista utiliza a palavra “bem” para expressar sua situação de providência da parte de Deus. Infelizmente usamos essa palavra de maneira banal, em nossos dias. Alguém sofreu gravemente em um acidente, dizemos: “Ele está bem, mas…”! Alguém se encontra enfermo ou necessitado de ajuda, dizemos: “Ele está bem, mas”!

Lendo o livro de John Piper “O Coronavírus e Cristo[2]”, aprendi que há duas maneiras de podermos expressar que estamos bem, e só uma representa os que confiam no Senhor. Ele diz que diante das calamidades da vida podemos nos expressar de duas maneiras possíveis: “Estou bem” e/ou “Me sinto bem”.

A primeira (“Estou bem”), é um estado de ânimo que envolve uma expectativa incerta. Ou seja, quando dizemos que alguém sofreu um grave acidente está bem, estamos na expectativa, embora incerta, de que ele esteja bem.

A segunda (Me sinto bem), por outro lado, é uma convicção, nem sempre baseada em fatos, mas alicerçada apenas na convicção de que nossa vida é dirigida por um Deus soberanos que sabe todas as coisas e que nele estamos guardados e seguros.

Esta é a certeza de que o salmista dispõe. Seu pedido à Deus é para que em sua infinita bondade e misericórdia, ele possa fazer com que sua vida – e de seus irmãos na fé (v.5), apesar dos problemas, seja mantida e protegida de acordo com seus propósitos soberanos. É nesse “bem” que o salmista está pensando neste versículo.

Ele pede que Deus cumpra seu propósito (o qual é bom) por meio das próprias circunstâncias que ameaçam seu povo – mesmo enquanto estão se debatendo sob “o cetro dos ímpios”. A aflição pode nos assaltar, mas ela não pode, nunca, nos destruir. Na verdade, Deus a designou como parte do processo pelo qual ele nos santifica. Esse é o bem a que ele se refere.

iii. A certeza de que Deus nos preserva – v.5

Embora a os que se desviam para caminhos tortuosos, há aqueles que perseveram em meio as lutas. Assim como existem aqueles que facilmente abandonam sua fé e se desviam dos caminhos do Senhor, há aqueles que são preservados no Senhor.

O salmista fala de resultados tenebrosos para os que trilharam caminhos tortuosos juntamente com os malfeitores; eles serão levados para longe da presença do Senhor, enquanto os que confiam no Senhor encontrarão paz, segurança e proteção nele.

Portanto, estejamos certos de que Deus vai nos preservar seguros não apenas de nossos inimigos, mas também de sua ira vindoura. Somente aqueles que mantem sua fé no Senhor de maneira inabalável podem dizer: Paz sobre Israel (igreja)!

Aplicação

Depois de termos essas certezas, ainda podemos aprender quatro resultados de uma fé inabalável na vida dos que confiam no Senhor. Vejamos:

  1. A fé nos mantém firmes – v.1-2: “os que confiam no senhor…continuam firmes, desde agora e para sempre”.
  2. A fé nos mantém obedientes – v.3: “…para que os justos não comecem a praticar a iniquidade” porque sua fé os mantém obedientes as palavras do Senhor.
  3. A fé nos mantém em oração – v.4: “Faze o bem, Senhor”.
  4. A fé mantém viva nossa esperança – v.5: “Paz sobre Israel”, as pessoas de fé sabem que, um dia, Deus julgará os desobedientes, ainda que, por ora, pareçam escapar impunes de sua resistência ao Senhor e dos abusos que cometem. Só o povo de Deus tem uma esperança viva baseada na paz de Deus que excede todo o entendimento.
Conclusão

Essas três certezas nos fornecem uma perspectiva extremamente necessária quando nos encontramos sob o “cetro dos ímpios”. Elas nos lembram que o Deus Trino está empenhado em nossa salvação, proteção, preservação e glorificação[3].

Em tempos de incertezas, dor e sofrimento, devemos recorrer à Cristo Jesus dizendo, conforme seus discípulos: “…Aumenta-nos a fé” (Lucas 17.15). E, uma vez que esta fé nos é dada, poderemos dizer como apóstolo Pedro:

3 Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, 4 para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros 5 que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo. 6 Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, 7 para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo; 8 a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória, 9 obtendo o fim da vossa fé: a salvação da vossa alma (1Pe 1.3-9).

Que mantenhamos na fé inabalável no Senhor de nossas vidas, Jesus Cristo. Amém!


[1] Yuille, J. Stephen. Saudades de Casa: Uma jornada através dos Salmos dos Degraus (pp. 80-81). CLIRE/Os Puritanos. Edição do Kindle.

[2] Piper, John. Coronavírus e Cristo/John Piper; tradução: Vinicius Musselman Pimentel. São José dos Campos, SP: Fiel, 2020.

[3] Yuille, J. Stephen. Saudades de Casa: Uma jornada através dos Salmos dos Degraus (p. 88). CLIRE/Os Puritanos. Edição do Kindle.

Referências
  • Calvino, J. (2009). Salmos Volume 4 – Série de Comentários Bíblicos. São José dos Campos, SP.: Editora Fiel.
  • Costa, F. M. (07 de Dezembro de 2018). O Cuidado de Deus por seus filhos. Fonte: Voltemos ao Evangelho: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/12/o-cuidado-de-deus-por-seus-filhos/
  • Wiersbe, W. W. (2006). Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, volume III – Poéticos. Santo André, SP.: Geográfica Editora.
  • Yuille, J. S. (2017). Saudades de Casa – Uma jornada através dos Salmos dos Degraus. Recife, PE.: Editora Os Puritanos.

Publicado por Pr. Luiz de Souza

Não ousaria me definir em frases prontas ou palavras que prefiguram alguém que ainda esta em construção. Vivo para que Deus seja conhecido e busco conhecer cada vez mais esse Deus. Minha gratidão é plena ao ser alcançado e resgatado por Jesus, e por isso vivo para que Ele cresça e eu diminua cada vez mais. Pois "A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo". [Ef 3.8]

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