Tenha compaixão de nós | Salmo 123

Introdução

Sou da geração de filhos que sabia exatamente o que um “olhar de um pai” queria dizer, em momentos distintos. Uma hora era de aprovação, outra, de reprovação. Poderia estar dizendo “você está me desobedecendo?”, ou “você me dá muito orgulho”.

O ponto é que, eu e meus irmãos, sabíamos interpretar os “olhares” de nossos pais. Esses olhares eram pedagógicos e resolviam todo tipo de problemas, sem necessidade de se fazer uso das palavras.

Neste Salmo também podemos contemplar a declaração do povo sofredor de Deus, ao recorrer à sua misericórdia e socorro. Como um servo sabia identificar os gestos das mãos de seus senhores, o salmista, ao olhar para o céu, sabe identificar de onde vem o socorro e misericórdia que tanto necessita.

Esse salmo foi escrito em uma época em que a igreja [o povo] de Deus fora derrubada e maltratada, alguns acham que foi quando os judeus estavam cativos na Babilônia, embora essa não tenha sido a única vez em que foram insultados pelos soberbos.

O salmista começa como se falasse só consigo mesmo (v. 1), mas logo fala em nome da igreja. Aqui temos: I. A expectativa deles de misericórdia de Deus (vv. 1.2). II. O pedido deles a Deus por misericórdia (vv. 3,4)[1].

O reformador do século XVI, João Calvino (2009, Pág. 346), resume este salmo da seguinte forma:

Neste salmo, os fiéis, oprimidos por tirania cruel da parte de seus inimigos, rogam a Deus que os liberte, não tendo ele nenhuma outra fonte de esperança, exceto a proteção de Deus.

Este salmo fala do Deus que se encontra entronizado no céu e cuja mão opera em favor de seu povo. Ele foi cantado por pessoas que enfrentaram a carranca do desprezo. Os cristãos também são chamados para suportar situações de escárnio e desprezo.

Este pequeno salmo é formado de três seções: versículos 1, versículo 2-3a e versículos 3b-4. A palavra “pois”, no meio do versículo 3, assinala a transição entre as duas seções. Na primeira, a “quem” o salmista ora. Na segunda, a oração do salmista. Na terceira, a razão do “por que” o salmista ora[2]. Vejamos:

i. A quem o salmista ora – v.1.

1 A ti, que habitas nos céus, elevo os olhos!”

Conforme o salmista eleva seus olhos, ele se concentra numa verdade singular: Deus está “entronizado nos céus”. Para onde os olhos dos peregrinos se moviam? Os peregrinos olhavam para o alto – eles olhavam para Deus.

Eles acreditavam que Deus estava ao lado dos homens, mas acima de tudo, acreditavam na transcendência do Senhor. Quando eles cantavam: “a ti, que habitas nos céus, elevo os olhos” era como se eles estivessem dizendo, com outras palavras, o seguinte: “nos céus tem o Senhor o seu trono e seus olhos estão atentos aos filhos dos homens.” (Sl 11.4).

Nosso Senhor Jesus, na oração, ensinou-nos a ter o olho voltado para Deus como o Pai nosso, que estás nos céus, não que Ele esteja confinado lá, mas é especialmente lá que Ele manifesta sua glória, como Rei em sua corte[3].

ii. A oração do salmista – v.2-3a.

2 Como os olhos dos servos estão atentos às mãos dos seus senhores, e os olhos da serva, à mão de sua senhora, assim os nossos olhos estão atentos ao Senhor, nosso Deus, até que tenha compaixão de nós. 3 Tem compaixão de nós, Senhor, tem compaixão.

Para entendermos a oração do salmista precisamos responder a três perguntas importantes. Vejamos:

  1. Para onde ele olha? v.1: “A ti, que habitas nos céus…”
  2. A maneira como ele olha – v.2: “Como os olhos dos servos estão atentos às mãos dos seus senhores, e os olhos da serva, à mão de sua senhora, assim os nossos olhos estão atentos ao Senhor, nosso Deus, até que tenha compaixão de nós”.
  3. O foco de seu olhar – v.3a: “Tem compaixão de nós, Senhor, tem compaixão…”.

iii. A razão do “por que” o salmista ora – v.3b-4

“…pois estamos saturados de tanto desprezo. 4 A nossa alma está saturada da zombaria dos arrogantes e do desprezo dos soberbos.”

Estes versículos mostram três detalhes importantes.

  1. o salmista fala na primeira pessoa do plural: “[nós] estamos… nossa alma está…”. Fica bem claro que ele está falando em nome de um grupo de pessoas.
  2. o salmista considera a causa do sofrimento deles o “desprezo” e o “escárnio”. O que faz com que esse tipo de ataque seja tão incômodo? Se você já foi alvo disso, já deve saber a resposta – é algo injusto, não merecido e irracional.
  3. o salmista diz que eles estão “sobremodo fartos”. Na verdade, ele diz isso duas vezes. A palavra hebraica significa, literalmente, estar saturado.

Por isso, o ponto do salmista é que eles tinham suportado tudo o que era possível aguentar.

Conclusão

Ele é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, o bendito e glorioso soberano (1Tm 6.15). Ele é o Alto e Sublime que habita a eternidade – para quem milhões de anos não passam de um momento. Seu Ser é ilimitado, ele é onipotente, insondável em sua sabedoria, e inimaginável em sua bondade. Diante dele, os anjos (as mais elevadas criaturas) escondem o rosto.

Toda a criação é menos do que nada em comparação com ele. Maravilha das maravilhas: Cristo morreu para nos conduzir a este Deus. Conhecer a Cristo é a diferença entre tudo e nada; festa e fome; plenitude e vazio; um oásis refrescante e um deserto escaldante; céu e inferno; uma eternidade de alegria e uma eternidade de sofrimento. Deus tem misericórdia de nós, fortalecendo-nos no meio da tribulação avivando nossa fé no fogo do seu amor em Cristo[4].

Em tempos de angústias e socorro, busquemos ao Pai nosso que estás nos céus. Ele está entronizado em seu mais alto e sublime trono, mas também está presente conosco. Ele é transcendente – está acima de toda a criação, mas também é imanente – está no meio do seu povo.

A Ele podemos orar na certeza de que nos ouve e pode nos atender. Podemos clamar por sua misericórdia na certeza de que Ele é compassivo e cheio de amor, como também nos ajudar em nossas fraquezas e limitações.

Ao olharmos para o céu, podemos manter viva a nossa esperança da volta de nosso Senhor Jesus Cristo, pois como diz as Escrituras: “Este mesmo Jesus, que dentre vocês foi elevado ao céu, voltará da mesma forma como o viram subir” (Atos 1.11b).

Acredite, Ele virá! Até que isso aconteça, oremos e clamemos ao Senhor dizendo: Tenha compaixão de nós.


Referências

  • Calvino, J. (2009). Salmos Volume 4 – Série de Comentários Bíblicos. São José dos Campos, SP.: Editora Fiel.
  • Costa, F. M. (16 de Novembro de 2018). O Principal Motivo da Alegria. Fonte: Voltemos ao Evangelho: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/11/o-principal-motivo-da-alegria/
  • Wiersbe, W. W. (2006). Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, volume III – Poéticos. Santo André, SP.: Geográfica Editora.
  • Yuille, J. S. (2017). Saudades de Casa – Uma jornada através dos Salmos dos Degraus. Recife, PE.: Editora Os Puritanos.

[1] Henry, Matthew. Comentário Bíblico – Antigo Testamento Volume 3 (Comentário Bíblico de Matthew Henry). CPAD, Edição do Kindle.

[2] Yuille, J. Stephen. Saudades de Casa: Uma jornada através dos Salmos dos Degraus (p. 57). CLIRE/Os Puritanos. Edição do Kindle.

[3] Henry, Matthew. Comentário Bíblico – Antigo Testamento Volume 3 (Comentário Bíblico de Matthew Henry). CPAD, Edição do Kindle.

[4] Yuille, J. Stephen. Saudades de Casa: Uma jornada através dos Salmos dos Degraus (pp. 63-66). CLIRE/Os Puritanos. Edição do Kindle.

Publicado por Pr. Luiz de Souza

Não ousaria me definir em frases prontas ou palavras que prefiguram alguém que ainda esta em construção. Vivo para que Deus seja conhecido e busco conhecer cada vez mais esse Deus. Minha gratidão é plena ao ser alcançado e resgatado por Jesus, e por isso vivo para que Ele cresça e eu diminua cada vez mais. Pois "A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo". [Ef 3.8]

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